domingo, 13 de novembro de 2011

Para Onde Olhar Quando Você Está em Aflição


Tullian Tchividjian

Na igreja evangélica aconteceu uma mudança referente à maneira como pensamos no evangelho. Esta mudança não é desconectada da vida real. Ela nos afeta na vida cotidiana.

Em sua obra Paul: An Outline of His Theology (Paulo: Um Esboço de Sua Teologia), o famoso teólogo holandês Herman Ridderbos (1909-2007) resume esta mudança, que aconteceu depois de Calvino e Lutero. Foi uma mudança grande, mas sutil, no foco da salvação, movendo-o da realização externa de Cristo para a nossa apropriação interna:

Em Calvino e Lutero toda a ênfase recaía no evento redentor que aconteceu na morte e ressurreição de Cristo. Posteriormente, sob a influência do pietismo, do misticismo e do moralismo, a ênfase mudou para a apropriação pessoal da salvação dada em Cristo e para seu efeito moral e místico na vida do crente. Em harmonia com isso, na história da interpretação das epístolas de Paulo, o centro de gravidade mudou, cada vez mais, dos aspectos judiciais para os aspectos espirituais e éticos da pregação de Paulo. E surgiu uma concepção totalmente diferente das estruturas que fundamentam a pregação de Paulo.

Donald Bloesch fez uma observação semelhante quando escreveu: "Entre os evangélicos, maior atenção é dada não à justificação dos ímpios (que era o motivo básico da Reforma), e sim à santificação dos justos".

Essa mudança veio acompanhada de uma nova ênfase na vida interior do indivíduo. A questão subjetiva "O que eu estou fazendo?" se tornou mais predominante do que a questão objetiva "O que Jesus fez?" Como resultado disso, gerações de crentes aprenderam que o cristianismo era primariamente um estilo de vida; que a essência de nossa fé se centralizava em "como vivemos"; que o verdadeiro cristianismo era demonstrado na mudança moral que aconteceu no interior daqueles que tinham um "relacionamento pessoal com Jesus". Portanto, nossas realizações constantes por Jesus, e não o que Jesus fez perfeitamente por nós, se tornaram a ênfase de sermões, livros e conferências. O que eu preciso fazer e quem eu preciso ser se tornaram o fim principal.

Creiamos nisso ou não, a mudança de foco, do aspecto "judicial para o espiritual", do exterior para o interior, desencadeia consequências práticas. 

Quando estamos à beira do desespero, olhando para o abismo de trevas, experimentando uma noite sombria da alma, voltar-nos para a qualidade interior de nossa fé não nos trará esperança, nem livramento, nem alívio. Frequentemente, a nossa pregação (e o nosso aconselhamento) equivale a dar instruções de natação a um homem que está se afogando: "Patinhe mais forte, mexa as pernas mais rápido". Supomos que as pessoas têm o poder interior de fazer as escolhas certas, por isso nós as levamos para dentro de si mesmas. (Interessantemente, Martinho Lutero definiu o pecado como "a humanidade voltada para dentro de si mesma"). No entanto, como muitas pessoas já sabem, toda resposta interior fracassará dentro delas mesmas. Voltar-nos para o objeto exterior de nossa fé, ou seja, Cristo, e sua obra consumada em nosso favor é o único lugar onde achamos paz, orientação e ajuda. Em vez de direcionar-nos para algo dentro de nós, o evangelho sempre nos direciona a algo, a Alguém, fora de nós, onde achamos a segurança que tanto desejamos em tempos de dúvida e desespero. A segurança que anelamos quando tudo parece destroçar-se não virá em descobrirmos o consagrado "herói interior", mas somente em compreendermos que, não importando como nos sentimos ou o que estamos sofrendo, já fomos descobertos pelo "Herói exterior".

Como Sinclair Ferguson escreveu em seu livro The Christian Life (A Vida Cristã): "A verdadeira fé obtém seu caráter e sua qualidade do seu objeto e não de si mesma. A fé tira uma pessoa de si mesma e a leva a Cristo. Sua força, portanto, depende do caráter de Cristo. Até aqueles de nós que têm fé fraca possuem o mesmo Cristo poderoso que os outros crentes possuem!"

Por meio de seu Espírito, a contínua obra de Cristo em mim consiste em seu constante e diário trazer-me de volta à sua obra consumada por mim. A santificação se satisfaz na justificação, e não o contrário. O evangelho é as boas novas que anunciam a infalível dedicação de Cristo a nós, apesar de nossa falta de dedicação a ele. O evangelho não é uma ordem de nos segurarmos em Jesus. Pelo contrário, o evangelho é uma promessa de que, não importando quão fraca seja a nossa fé em tempos de depressão espiritual, Deus está sempre nos segurando.

Martinho Lutero usava uma expressa para se referir ao perigo que surge de colocarmos nossa esperança em qualquer coisa que há em nosso interior: monstrum incertitudinis (o monstro da incerteza). É um perigo que, desde a Queda, sempre aflige os cristãos, mas aflige especialmente os cristãos de nossa época altamente subjetivista. É um monstro que só pode ser destruído pelas promessas exteriores de Deus em Jesus.

Romanos 5.1 diz: "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo". Esta é uma paz genuína, edificada sobre uma mudança real em nossa posição diante de Deus – da posição de culpados diante de Deus, o juiz, para a posição de justos diante de Deus, nosso Pai. Esta é a segurança objetiva até do mais fraco dos crentes. É uma paz que descansa totalmente no fato de que já "fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho" (v. 10); fomos justificados diante de Deus, de uma vez por todas, por meio da fé na obra consumada de Cristo. Esta paz produzirá sentimentos verdadeiros e ação resoluta. No entanto, esta paz com Deus, que Paulo descreve, repousa seguramente na obra de Cristo por nós, fora de nós. A verdade é esta: quanto mais eu olho para meu próprio coração em busca de paz, tanto menos a encontro. Por outro lado, quanto mais eu olho para Cristo e suas promessas em busca de paz, tanto mais a encontro.

Então, quando pressionados por todos os lados, olhemos para cima. Na administração de Deus, a única saída é sempre para cima, e não para dentro.

William Graham Tullian Tchividjian é o pastor da Igreja Presbiteriana Coral Ridge em Ft. Lauderdale, Florida. É professor visitante de Teologia no Reformed Theological Seminary e neto do conhecido pregador e evangelista Billy Graham. É formado em filosofia pela Universidade de Columbia e obteve seu M.Div peloReformed Theological Seminary. Tullian é autor de vários livros e contribui como um dos editors do jornal Leadership Journal. Ele é preletor em diversas conferência teológicas nos EUA e faz um programa de rádio, com meditações e pregações. É casado com Kim, com quem tem três filhos Gabe, Nate, e Genna.

Traduzido por: Wellington Ferreira
Editor: Tiago J. Santos Filho
Copyright©2011 Tullian Tchividjian
Copyright©2011 Editora Fiel
Traduzido do original em inglês: Where To Look When You're In Trouble – Extraído do Site: The Gospel Coalition.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma Palavra Mágica - J. I. Packer


A palavra reforma é mágica para meu coração, assim como sei que é para o seu. Dizemos reforma e imediatamente pensamos naquela época heróica do século dezesseis em que tantos eventos portentosos se deram que ainda chamejam em nossa imaginação.

Nossa Herança da Reforma

Pensamos, por exemplo, em Martinho Lutero pregando suas noventa e cinco teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, desafiando, conforme transpareceu, todo o sistema religioso do seu tempo. Pensamos em Lutero em Worms uns anos após, enfrentando o sagrado imperador romano e sendo ordenado a retirar seus desafios e seu testemunho da justificação pela fé.

A resposta famosa que deu ao imperador, aos nobres e aos dignitários eclesiásticos da Europa central foi essa: "A não ser que os senhores me provem pela Escritura e pela razão que eu estou errado, não poderei e não me disporei a voltar atrás. Minha consciência está sujeita à Palavra de Deus. Ir contra a consciência não é direito nem seguro. Aqui fico. E que Deus me ajude. Amém". Essas palavras magníficas têm ecoado até nós através dos séculos, e com justiça.

Lutero manteve-se firme em sua fé. Traduziu a Bíblia para o alemão e pregou e escreveu incansavelmente para difundir a mensagem do evangelho. Tornou-se o pioneiro da reforma. Seu nome certamente será honrado enquanto durar a História.

Lembramo-nos também de João Calvino, aquele erudito recatado que só queria ser um homem de letras que estivesse lendo e escrevendo livros durante a vida inteira. Mas o feroz Guillaume Farel de barba ruiva lhe disse que ele precisava se estabelecer em Genebra para ali tomar parte no trabalho da Reforma, e ele fez isso. Com apenas quatro horas de sono por noite, não só pregava sermões diariamente e se desincumbia de suas responsabilidades pastorais, como também labutava com a caneta, produzindo entre outras obras-primas as Institutas, essa grande declaração cristã que para muitos de nós ainda está numa classe à parte. Também escreveu comentários sobre a maioria dos livros da Bíblia, estabelecendo novos e elevados padrões de exposição fiel. Calvino faleceu aos cinqüenta e cinco anos, completamente esgotado — outro dos heróis de Deus.

Também nos vem à memória João Knox, obrigado a passar uns dois anos como escravo remador de galé por causa de suas atividades como reformador, e finalmente recompensado por algumas semanas extraordinárias durante as quais praticamente toda a Escócia aderiu à Reforma. De um dia para outro a Escócia tornou-se a nação tenazmente protestante que tem sido desde então.

Os mártires ingleses também nos vêm ao pensamento. Pelo mérito destaca-se em primeiro lugar William Tyndale, que desafiou o rei traduzindo a Bíblia. E acabou condenado à fogueira na Bélgica porque Henrique VIII alertou a Europa toda de que ele precisava ser morto.

Depois houve Thomas Cranmer, o arcebispo de Henrique em Cantuária, que aguardou até ser possível produzir uma confissão de fé reformada e um livro de orações reformado para a Igreja Anglicana. Mas cedo demais Eduardo VI, seu patrocinador real neste empreendimento, morreu, e Mary tornou-se rainha. Ela decidia levar a Inglaterra de volta à Roma. Mandou à fogueira uns 330 protestantes ingleses, incluindo cinco bispos — e Cranmer foi um deles. Jogaram-no na prisão, onde ele foi colocado sob pressão intolerável — hoje daríamos a isso o nome de lavagem cerebral. Por causa da pressão extrema, Cranmer retratou-se de suas convicções protestantes, assinando seis documentos nesse sentido poucos dias antes de morrer na fogueira. Tinham-lhe dito que se assinasse seria perdoado. Quando descobriu no dia seguinte que seria queimado vivo assim mesmo, passou a noite em claro retratando-se por escrito daquela primeira retratação. Leu isso em voz alta na Igreja de Saint Mary, em Oxford, na presença de seus acusadores estupefatos, que logo apressaram sua saída para a fogueira. Morreu estendendo a mão direita às chamas, assim cumprindo uma promessa daquela sua última fala: "E posto que minha mão ofendeu, escrevendo contrário a meu coração, minha mão será punida primeiro por isso; pois seja eu levado ao fogo, será queimada primeiro".

Estes casos de heroísmo cristão continuam vivos, assim como continuam preciosas as verdades pelas quais esses reformadores viveram e morreram. Então quando dizemos a reforma, naturalmente pensamos nos eventos e damos graças a Deus por eles. As riquezas de sabedoria entesouradas na teologia dos Reformadores são mais do que já temos dominado hoje, e a força altruísta do testemunho à verdade desses Reformadores nos é uma inspiração constante. É deles a fé pela qual eu vivo e pela qual espero morrer, e eu confio que isto seja verdade para você também. Graças a Deus pela Reforma!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Única proteção contra o erro - João Calvino (1509-1564)

Para que Alguém Possa Chegar a Deus, O Criador, É Necessário Que Tenha A Escritura Por Guia e Mestra.


O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia. 

Portanto, se bem que o fulgor que se projeta aos olhos de todos, no céu e na terra, retire totalmente toda base para a ingratidão dos homens - e ainda que Deus, para envolver o gênero humano na mesma culpa, mostre a todos esboçada nas criaturas, sua Divina Majestade -, é necessário, contudo, além disso, acrescentar outro recurso melhor, que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Por isso, não foi em vão que Deus acrescentou a luz de Sua Palavra para fazer-Se conhecido para a salvação do homem. E considerou dignos deste privilégio a todos aqueles aos quais quis trazer, para perto de Si, mais aproximada e intimamente.
Ora, porque Deus via a mente de todos ser arrastada, de um lado para outro, por constante e imutável agitação - depois de escolher os judeus para Si, como povo especial -, cercou-os por todos os lados, para que não se extraviassem com os demais povos. E não é em vão que ele nos mantém, por meio do mesmo remédio, no puro conhecimento de Si próprio, porque, de outra forma, se desfariam bem rapidamente até mesmo os que parecem mais firmes do que os outros. É exatamente como acontece com pessoas idosas ou enfermas dos olhos, e a todos quantos sofre de visão embaraçada: se pusermos diante delas até mesmo um volume vistoso, ainda que reconheçam estar ali algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, com o auxílio de óculos, essas pessoas começarão a ler de maneira eficiente. Assim a Escritura, reunindo na nossa mente, o conhecimento de Deus - que, de outro modo, seria confuso fazendo desaparecer a escuridão -, mostra-nos, com clareza transparente, o Deus Verdadeiro.
Constitui, pois uma dádiva singular o fato de Deus - para instruir a igreja -, servir-Se não apenas de mestres mudos, mas, ainda, abrir sua boca sacrossanta para não simplesmente proclamar que se deve adorar a Deus, mas também, ao mesmo tempo, declarar que Ele é esse Deus a quem devemos adorar. E não ensina Ele meramente aos eleitos que devem obedecer a Deus, mas mostra-Se como Aquele a Quem eles devem obedecer. Este modo de agir Deus tem mantido para com sua igreja, desde o princípio, de modo que, afora essas evidências comuns, Ele aplicasse também a palavra que é a marca direta e segura para reconhecê-LO.

Nem é para se duvidar de que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas - em função deste recurso - tenham conseguido mais íntimo conhecimento de Deus, fato que, de certo modo, os destingue dos incrédulos. Não estou falando ainda da doutrina da fé, pela qual eles haviam sido iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que pudessem eles passar, da morte para a vida, foi necessário que eles conhecessem a Deus não apenas como Criador, mas também como Redentor, pois eles chegaram a conhecer a Deus desses dois modos, seguramente, através da Palavra.
Ora, pela ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual lhes foi dado compreender quem é Deus, por meio de Quem o mundo foi criado e é governado. Em seguida, acrescentou-se, depois, a outra modalidade de conhecimento, interior, porque só esse conhecimento vivifica as almas mortas e só por ele se conhece a Deus não apenas como Criador do universo, Autor e Árbitro único de todas as coisas que existem, mas também na Pessoa do Mediador, como Redentor. Contudo, porque não tratei ainda da queda do mundo e da corrupção da natureza, não apresento ainda, aqui, o remédio.
Devem lembrar-se, portanto, os leitores de que não farei ainda considerações a respeito do pacto, mediante o qual Deus adotou, para Si, os filhos de Abraão, mas tratarei ainda daquela parte da doutrina pela qual os fiéis sempre foram apropriadamente separados das pessoas profanas, por aquela doutrina se fundamenta em Cristo (e, por isso, deve ser abordada na seção Cristológica); Agora, entretanto, só focalizarei como se deve aprender, da Escritura, que Deus como Criador, se distingue - por meio de marcas seguras - de toda a inventada multidão de deuses. Oportunamente depois, a própria seqüência dos fatos conduzirá ao estudo da redenção. Embora devamos derivar muitos testemunhos do Novo Testamento, e outros testemunhos da lei e dos profetas - onde se faz clara referência a Cristo -, sabemos que todos estes testemunhos visam mostrar que Deus, o Artífice do universo, se torna patente na Escritura e nela também se ensina o que devemos pensar a respeito de Deus, para que não busquemos, por caminhos tortuosos, alguma divindade incerta.

A Bíblia é a Palavra de Deus Escrita
Quer Deus Se tenha feito conhecido, aos patriarcas, através de visões ou oráculos, quer tenha dado a conhecer - mediante a obra e ministério de homens -, aquilo que, depois, transmitiria a pósteros pelas próprias mãos, está fora de dúvida que Deus gravou, no coração deles, a firme certeza da doutrina, de modo que fossem convencidos de que procedia de Deus o que haviam aprendido. Por isso Deus, pela Sua Palavra, tornou a fé segura para sempre, fazendo-a superior a toda mera opinião. Finalmente para que em perpétua continuidade de doutrina, a verdade permanecesse no mundo, sobrevivendo a todos os séculos, quis Deus que esses mesmos oráculos - que deixou em depósito com os Patriarcas -, fossem registrados como em públicos instrumentos. Com este propósito foi promulgada a Lei, à qual se acrescentaram, depois, como intérpretes, os Profetas.

Ora, se bem que foi múltiplo o uso da lei - como se verá no lugar mais adequado -, na verdade, foi dada especialmente a Moisés e a todos os profetas (a responsabilidade de) ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, fato que levou Paulo a dizer que Cristo é o fim da Lei (Rm.10:4). Contudo, torno a afirmar que, além da apropriada doutrina da fé e do arrependimento - que apresenta Cristo como Mediador -, a Escritura adorna, com sinais e marcas inconfundíveis, o Deus Único e Verdadeiro como Criador e Governador do mundo, para que Ele não seja confundido com a espúria multidão de deuses.

Portanto, por mais que ao homem sério convenha levar em conta as obras de Deus - um vez que foi ele colocado no belíssimo teatro do mundo para ser espectador da obra divina -, contudo, para ele poder aproveitá-la melhor, precisa dar ouvido à Palavra. Por isso, não é de admirar que os que nasceram nas trevas endureçam, mais e mais, a sua sensibilidade, visto que muito poucos se submetem docilmente à Palavra de Deus, de maneira a respeitar os seus limites; ao contrário, antes se gloriam em sua presunção.

Mas, para que a verdadeira religião resplandeça em nós, é preciso que ela seja o ponto de partida da doutrina celeste, pois não pode provar se quer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, senão aquele que se tornar discípulo da Escritura. Pois o princípio do verdadeiro entendimento vem do fato de abraçar-mos, reverentemente, o Deus testifica de Si mesmo na Escritura. Da obediência à Palavra de Deus nascem não somente a fé consumada e completa, em todos os seus aspectos, mas também todo reto conhecimento de Deus. E neste aspecto, fora de toda dúvida, Deus, com singular providência, levou em conta os mortais em todos os tempos.


A Bíblia é o Único Escudo que Nos Protege do Erro


De fato, se refletirmos quão acentuado é a tendência da mente humana para esquecer a Deus, quão grande é a inclinação dos homens para com toda espécie de erro e quão pronunciado é o gosto deles para forjar, a cada instante, novas fantasiosas religiões, poderemos perceber como foi necessário a autenticação escrita da doutrina celeste, para que ela não desaparecesse pelo esquecimento, nem se desfizesse pelo erro, nem fosse corrompida pela petulância dos homens.

Deste modo, como está sobejamente demonstrado, Deus providenciou o auxilio de Sua Palavra para todos aqueles aquém quis instruir de maneira eficaz, pois sabia ser insuficiente a impressão de Sua Imagem na estrutura do universo. Portanto, se desejamos, com seriedade, contemplar a Deus de forma genuína, precisamos trilhar a reta vereda indicada na Sua Palavra.

Importa irmos à Palavra na qual, de modo vivo e real, Deus Se apresenta a nós em função de Suas obras, ao mesmo tempo em que essas mesmas obras são apreciadas, não sendo o nosso julgamento corrompido, mas de acordo com a norma da verdade eterna. Se nos desviarmos da Palavra, como ainda há pouco frisei, mesmo que nos esforcemos com grande empenho - pelo fato de a corrida ser fora da pista - jamais conseguiremos atingir a meta. Devemos pensar que o esplendor da face divina, que até mesmo o Apóstolo Paulo reconhece ser inacessível (I Tm.6:16), é para nós um labirinto emaranhado, no qual só podemos entrar se, através dele, formos guiados pelo fio da Palavra. Por isso, é preferível andar mancando, ao longo deste caminho a correr velozmente fora dele!

É por isso que, não poucas vezes, nos Salmos 93, 96, 97 e outros, ensinando que devemos tirar do mundo as superstições, para que floresça a religião pura, Davi representa a Deus como Aquele que reina, dando a entender, pelo termo reinar, não o poder de que Deus está investido e que exerce no governo universal da natureza, mas significando a doutrina pela qual reivindica, para Si, a legítima soberania, visto que jamais se pode arrancar os erros do coração humano, enquanto nele não se implantar o verdadeiro conhecimento de Deus.


A Revelação da Bíblia é Superior a Revelação da Criação


Por isso, onde o mesmo profeta afirma que os céus proclamam a glória de Deus, que o firmamento anuncia as obras das Suas mãos e que a regular seqüência dos dias e das noites apregoa a Sua majestade (Sl19:1-2), em seguida faz menção de Sua Palavra: "A Lei do Senhor" diz ele, "é perfeita e restaura as almas; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples; os mandamentos do Senhor são retos e alegram o coração; o preceito do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl19:7-8). Ora, ainda que faça referência a outros usos da Lei, assinala ele, contudo, de modo geral, que Deus ainda que em vão convide a Si todos os povos, pela contemplação de Suas obras, oferece a Escritura como a única escola de Seus filhos.

Idêntica é a maneira como o Profeta fala no Sl.29, porque, depois de discursar a respeito da terrível voz de Deus - que sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, fazendo tremer as montanhas e despedaçando os cedros - acrescenta, ao final, que no santuário de Deus se cantam louvores, visto que os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus, que ressoam nos ares! Da mesma maneira conclui ele outro Salmo, onde descreve as espantosas ondas do mar: "Confirmados foram os Teus testemunhos; a santidade é, para sempre, a formosura do Teu templo"(Sl.93:5). Daí vem também o que Cristo disse à mulher samaritana (Jo.4:22): que a gente dela e os outros povos adoravam o que desconheciam; que só os judeus prestavam culto ao Deus verdadeiro!

Ora, já que a mente humana, por causa da sua estupidez, não pode chegar até Deus, a menos que seja guiada e sustentada por Sua Sagrada Palavra, com exceção dos judeus (que eram guiados pela Palavra) todos os mortais - pelo fato de buscarem a Deus sem a Palavra -, tiveram de vagar na estultície e no erro!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A perda que compensa...

















Associamos a ideia da perda quase sempre como se fosse um prejuízo, porém na realidade não é assim que acontece. O tempo mostra que algumas perdas são até necessárias no percurso de nossa vida. Perdemos o cordão umbilical quando nascemos e é assim, com uma perda, que iniciamos a nossa chegada neste mundo. De forma geral o tempo acaba se encarregando de amadurecer a nossa maneira de relacionar com essas perdas, sabendo que muitas vezes ganhamos com elas, entretanto não pretendemos também enumerá-las.

Se ganhamos com algumas perdas devemos tirar lições que possam nos trazer conhecimento e crescimento diante das situações na vida. Ao perder o cordão umbilical ganhamos uma identidade que se formará ao longo da nossa existência. Perdemos os dentes provisórios e ganhamos os permanentes. Perdemos a nossa infantilidade (ou meninice) para iniciar o nosso processo de maturidade. No entanto, nem toda perda vem seguida de um ganho. Quando se perde algo que se dá muita importância, ocorre um sentimento onde se revela o verdadeiro valor que aquilo tinha no sentido real da existência. Isto ocorre de modo geral quando se perde um familiar ou o que julgam ser um grande amor e isto traz um trauma que às vezes o tempo não consegue curar.

A morte ainda é o maior drama que o ser humano tem como desafio para enfrentar. E embora esta pergunta possa parecer contundente, quem desejaria morrer mesmo sabendo que foi justificado por Deus? Jesus disse em João 11:25 "...Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá". E em Mateus cap. 16:24 "Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quiser ir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me." 

Renunciar significa: Abrir mão de, desistir, recusar e ainda abandonar. Jesus disse que a renúncia de si mesmo seria o requisito da decisão para quem desejasse segui-lo. Renunciar a si mesmo é rejeitar aquilo que havia em nós de ruim, ou seja, perder essa nossa natureza má. No entanto, devemos ter o conhecimento de que Jesus não nos pede para renegar o que somos, porém que sejamos algo de bom, aquilo no qual nos convertemos, em seus discípulos.

No versículo seguinte, ainda em Mateus cap. 16:25 Jesus declara: "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, salva-la-á". Portanto, Jesus é o único caminho que conduz à vida e renunciar a si mesmo é necessário para não se desviar deste caminho. Renunciar significa abrir mão do pecado que havia em nós para viver uma nova vida. Recusar e ainda abandonar o velho eu é essencial para que Jesus reine em nós. Assim, devemos ter conhecimento da vontade de Deus e aceitar o plano original d'Ele para nós. Porque uma nova criatura surge quando se perde em nós o velho homem. Esta é realmente a perda que compensa...

Dia 06/09/11 no site de mesmo nome, Josemar Bessa publicou um post sobre o tema "O Cálice amargo vem de Deus" que eu republiquei dia 27/09/11, onde ele descreveu muito bem sobre as dádivas de Deus e as nossas perdas. Transcrevo aqui esta parte que será muito oportuna: "Tudo que recebemos é misericórdia! Misericórdia concedida, misericórdia continuada dia a dia, e misericórdia no tempo certo, retida."  Mais adiante ele disse: "Suas dádivas não compensam Sua falta; mas Sua presença compensa a perda de todas as dádivas". Isto nos incentivou a fazer essa reflexão. Valeu! 

domingo, 16 de outubro de 2011

Graça para Ajudar em Tempo Apropriado








por John Piper
Você observou que esta tradução é um pouco diferente de outras? A tradução habitual da última sentença é: "Acharmos graça para socorro em ocasião oportuna". E, "graça para ajudar em tempo apropriado" é também uma tradução literal e exata. Não existe contradição entre essas duas traduções. Porém, algumas traduções chamam a atenção à nossa necessidade; nesta, literal, ao tempo de Deus.

Acho que precisamos focalizar na graça do tempo de Deus. Quando temos uma necessidade, nos sentimos bastante inquietos a respeito de quando Deus satisfará tal necessidade. Queremos que Ele o faça agora! Não é natural pensarmos que a graça de Deus será mostrada tanto em seu tempo como em sua forma. Mas Hebreus 4.16 lembra-nos a buscarmos a Deus não somente quanto ao tipo de graça de que necessitamos, mas também quanto ao tempo dessa graça.

Isto pode mudar nossa atitude na oração. O tempo de Deus é freqüentemente estranho, e isso não deveria surpreender-nos, visto que, "para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia" (2 Pe 3.8). Deus pode compactar mil anos de impacto em um dia e levar mil anos para fazer a obra de um dia. No primeiro caso, Ele não fica sobrecarregado, e, no segundo, não se mostra apressado. Como disse o apóstolo Pedro: "Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada" (2 Pe 3.9).

Portanto, não nos surpreendamos com o fato de que "ajudar em tempo apropriado" seja na perspectiva de Deus algo diferente do que o é na nossa perspectiva, mas a dEle é sempre melhor. É sempre graça para nós. É uma graça que deve sempre receber nossa confiança pelo que ela é e pelo tempo em que nos será dada.

Eu preciso de ajuda. Sempre. Em tudo. Estou simplesmente enganando a mim mesmo, se penso que posso mover-me por alguns centímetros sem a ajuda de Deus. "Pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais" (At 17.25). Preciso da ajuda de Deus para o bem de minha fé, a qual é fraca. Preciso dela para estimular o meu zelo e para dar-me poder para evangelizar. Preciso desta ajuda para a adoração autêntica. Preciso dela para ter coragem no viver santo. Preciso da ajuda de Deus para a transformação de meus filhos adolescentes em jovens humildes, respeitáveis e centralizados em Deus. Preciso dela para que eu possa ministrar esperança, gozo e ousadia aos nossos missionários e para receber orientação quanto a planejar o futuro. Preciso da ajuda de Deus para milhares de outras exigências, ênfases e agradáveis possibilidades.

Gosto muito de pensar na soberania de Deus em administrar seu tempo. Por exemplo, Daniel afirmou que o Senhor "muda o tempo e as estações" (Dn 2.21). Isto significa que as épocas de bênçãos modestas ou imensas em nossa vida, nosso lar e nossa igreja estão nas mãos de Deus. Ele geralmente determina o tempo de nossas bênçãos, de modo que a sua sabedoria, e não a nossa, seja ressaltada. Deus está mais interessado na paciência da fé do que em nossa satisfação instantânea. O tempo de Deus pagará os seus dividendos, além do que podemos imaginar. Sempre é "graça para ajudar em tempo apropriado". O tempo e o conteúdo da bênção são graciosos. A fé descansa nos aspectos e no momento da graça de Deus.

Por isso, este convite de Hebreus 4.16 é muito precioso para mim. Preciso de ajuda, mas, não a mereço. No entanto, Deus provê ajuda, porque seu trono é um trono de graça e ajuda imerecida. Em todas estas necessidades, o Senhor tem "graça para ajudar em tempo apropriado". Nosso dever consiste em aproximar-nos dEle com ousadia, achar e receber essa ajuda do trono da graça. Temos razão para crer que Ele nos ouvirá e nos ajudará no tempo apropriado.

Portanto, cheguemos confiantemente junto ao trono da graça e recebamos o que Deus tem para nós — uma graça soberanamente designada e controlada quanto ao tempo para o nosso maior bem.

Extraído do livro: Uma Vida Voltada para Deus, de John Piper.

Copyright: © Editora FIEL



Fonte: http://voltemosaoevangelho.blogspot.com/search/label/P%20-%20John%20Piper

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um tempo de Reforma pode estar chegando?


Como um Coração anseia por uma Reforma?

Em Israel houve um rei chamado Manassés. Ele foi um dois piores reis de Israel, e olhe que a lista de péssimos reis em Israel era bem grande. Manassés superou todos, podemos dizer que é o cara mais ‘mau’ da Bíblia sem exagero (Sabendo, é claro, que todos os pecadores são maus). Como rei ele teve um governo corrupto, um governo pautado na maldade, na completa exclusão de Deus – apesar disso – ele governou durante 55 anos. Nós que na maioria das vezes não suportamos governos que duram 4 ou 8 anos, podemos imaginar o que aquelas pessoas tiveram que suportar. Cinquenta e cinco anos é uma geração inteira.

Ele incentivou a prática de cultos pagãos (parecido com o que temos visto no meio da igreja hoje) – Patrocinou o envolvimento da comunidade em orgias sexuais aos deuses da fertilidade, instituiu prostitutas sagradas em santuários espalhados por todo o país, importou magos de outras nações e escravizou o povo com toda sorte de superstições.

O compromisso com a Verdade e Santidade nada tem haver com a época em que nascemos, por mais corrompida que ela seja – Foi nessa geração que nasceu Jeremias. Ele não teve uma vida de excelência por ter nascido numa geração que o favorecia para isso – Jeremias nasceu numa geração mergulhada na mais profunda trevas e no pior de todos os péssimos reis de Israel. Numa sociedade completamente pervertida foi onde o menino Jeremias cresceu e foi educado. Onde tudo era permitido, toda perversão sexual aceita, todo mal tolerado... orgias sexuais eram culto. Neste ambiente o menino Jeremias se tornou homem.

Manassés morreu e seu filho Amom tomou seu lugar – não é sem significado que o filho de Manassés tem o nome de um deus pagão. A pequena parte do povo que esperava uma mudança logo se frustou – Amom repetiu tudo o que o seu pai fez e alguns servos do palácio o mataram – E seu filho – Josias – precocemente, com 8 anos teve que assumir o trono – e a medida que crescia se dá um dos melhores tempos da história de Israel – mesmo precoce – quando ainda era adolescente um grande Reforma foi vivida pela nação.
Mas ele não tinha referenciais – seu pai e avô eram completamente profanos – Que padrão ele deveria seguir? Que herança ele tinha? Que modelos ele poderia seguir para a Reforma. É inexplicável humanamente o desejo por Reforma se instalar no pequeno coração de Josias tendo como avô Manassés e como pai Amom. Esse desejo é algo novo e sobrenatural que Deus introduz no coração.

Jeremias e Josias – Produtos de uma geração corrompida, profana, que corrompeu completamente o culto a Deus (como a nossa) – auto-indulgente, pérfida... Como nesses corações pode brotar uma paixão por uma Reforma? Como não ser um produto da sua geração? O processo de implantação de Deus de uma coração assim é algo que em sua plenitude é inacessível a nós – mas Deus pode fazer isso na geração de Manassés e Amom – Deus pode e faz isso hoje.

É possível naquela geração, como Josias, crescendo naqueles palácios, cercado com toda a possibilidade e facilidade para o culto ao sexo e a qualquer prazer corrompido imaginado, Deus levantar um garoto com um Santo desejo por Reforma. Jeremias, criado no meio do povo comum – naquela mesma geração – também foi tocado pelo dedo de Deus e seu coração ardeu por Reforma que colocasse a glória de Deus no centro da vida da nação.

Creia no poder da vida de Deus quando ele toca o coração humano e o invade o tornando novo. Isso me faz lembrar toda a devastação na natureza que o homem faz para o seu conforto – destruímos tudo – calçamos tudo, colocamos asfalto em tudo, criamos o que poderíamos chamar de selva de pedra...  Parece que a feiúra nascida da ambição é invencível – como os dias espirituais de hoje no que ainda chamamos igreja. Mas então, quando parece que a vida não tem mais chance – que poder a vida tem – Se os homens abandonarem um lugar por mais cimentado, concretado, asfaltado que esteja – começa haver rachaduras, e dessas rachaduras começa a brotar vida. Mato, ervas, árvores... e sem a atuação danosa humana – logo aquele lugar volta ao viço verde de outrora. É o poder da vida sobre o horror da morte na criação de Deus.

Mas estamos falando de algo infinitamente maior – o Poder da Vida de Deus quando invade e dá uma nova natureza – a geração que nascemos, a perversão do ambiente, a queda da igreja mais baixo quanto possível, a perversão do culto... não podem impedir que Josias e Jeremias sejam levantados com um desejo por Reforma, e mais do que isso, como instrumentos  para ela. 

Depois de tanta vilania prosperando por décadas através de Manassés e Amom, parecia impossível que a vida de Deus se manifestasse tão poderosamente como foi demonstrada na Reforma que veio através de Josias e depois o ministério com um homem chamado Jeremias.

Anime-se, um tempo de Reforma pode estar chegando. Deseje e se prontifique ser um Josias e um Jeremias nem tempo de desolação.

                                                               Soli Deo Gloria!!


terça-feira, 4 de outubro de 2011

Comentário a Romanos 6:8-11


ROMANOS 6:8-11
Se morremos com Cristo cremos que também vivermos com Ele. Sabemos que Cristo, havendo ressuscitado entre os mortos, não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele, pois sua morte foi a morte para o pecado, que ocorreu uma vez por todas. Sua vida, porém, é vida para deus. Assim, considerai-vos, a vós, também mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus."Se morremos com Cristo cremos que também viveremos com ele".


Está na própria consistência da coisa que a prova da afirmação de que nos é impossível permanecer no pecado (6:1) ressalta do profundo significado que o "morrer em Cristo" tem para o homem do pecado [para o homem velho]; a prova de que é impossível permanecer no pecado está na vigorosa negação que a morte de Cristo significa e além da qual estamos como bem-aventurados, [como contemplados pela graça de Deus].

Se como pecador estou crucificado, morto e sepultado em Cristo, sou idêntico ao "X" que surge além do homem nosso conhecido, do "X" que foi "isolado", posto em evidência e transportado para o outro lado de nossa equação, com o sinal positivo! 
Contudo, é preciso ficar muito claro que o que a negação, que a crucificação, a morte e o sepultamento do pecador representam é uma conseqüência do divino "SIM", para que não compreendamos mal o que ficou dito sob 6:4. A força viva que domina essa negação – [e que se fundamenta no "SIM" de Deus, na sua aceitação do homem para reconciliá-lo com ele, em Cristo] é um poder que cancela todo o "SIM" e todo o "NÃO" do MUNDO; ela extingue a diferença existente entre "aquém" e "além"; ela faz desaparecer a correlação "tanto... quanto"; ela elimina a dualidade, a diferença de potencial [a tensão], a polaridade; ela cancela toda alogenia* e toda antinomia.
Esta negação é, na realidade, uma "impossibilidade positiva" que, até aqui, muitas vezes foi confundida com simples negação ao pecado.
"Se morremos com Cristo, então cremos"... "Crer"! Portanto, a fé é o primeiro e último, o único, o decisivo ingrediente da psicologia da graça. É pela crença – ou é pela fé – que o ser humano se vê restabelecido em Deus, embora, por enquanto, ainda não o seja.
A fé é o passo inigualável que, uma vez dado, é irreversível; não pode mais ser desfeito; é o passo com o qual o crente transpõe a linha da divisa existente entra a velha e a nova criatura, entre o mundo velho e o mundo novo. Fé é a plenitude do paradoxo humano: é vacuidade absoluta de conteúdo material e a plena locupletação de conteúdo divino; ela emudece o homem, proclama a sua ignorância e o reduz à expectativa, mas é também a voz de Deus, a revelação de sua sabedoria e sua obra eficaz; [resposta à ansiedade humana]. A fé é [o final das coisas materiais], o ponto final do caminho [da criatura neste mundo], mas é também [o início do que é divino] – o começo do caminho, a inflexão, a reviravolta, o retorno [que leva a "nova-criatura" a Deus].
É a fé que desloca o aparente equilíbrio entre o "SIM" e o "NÃO"!!, entre a graça e o pecado, entre o bem e o mal.
Se morremos em Cristo, vemos a nossa problemática à luz que vem da cruz; [vemos a incerteza e a insegurança de nossa vida] como sendo um meio necessário para percebermos [o começo de nossa existência em Deus para além do fim de nossa existência terrena]; no fim do homem, - o começo de Deus; para reconhecermos a luz do amor de Deus no furor da tempestade da ira divina.
Para quem crê, tem lugar a primitiva existência do homem em Deus. Para quem crê acontece o passo inigualável, dá-se o retorno que já não pode mais ser desfeito e que, mais do que essa irreversibilidade, sequer permite que o ser [assim reconciliado com Deus], volva os olhos para trás.
- Em que cremos, pois, se a nossa fé, à luz do momento crítico, à luz da cruz de Cristo, não for apenas aparência, mas realidade; não for apenas vacuidade, porém fidelidade divina?
- Cremos que Cristo morreu em nosso lugar e, portanto, nós morremos com ele. Cremos em nossa identidade com o "homem novo" que surge além da morte na cruz; cremos em nossa existência eterna, baseados no conhecimento que temos da morte, sabendo que nossa vida está fundamentada em Deus, pela ressurreição. Cremos que "viveremos com Ele"! Cremos também em nós mesmos, como sendo o "sujeito" invisível deste "FUTURUM RESSURRECTIONIS".
Esta fé, com todos os entraves que lhe são inerentes, com todas as reservas e com todos os sinais de interrogação e exclamação que comporta, é a "nossa" fé!
Esta nossa fé, inteiramente estranha à psicologia usual, é justamente o que torna impossível admitir a existência do pecado junto com a graça. "Se crês, tens"! se cremos estamos desvinculados do pecado.
"Sabemos que Cristo, havendo ressuscitado de entre os mortos, não morre mais; "a morte já não tem poder sobre ele".
Fé é a ousadia de sabermos o que Deus sabe e, por isso, também a de ignorarmos o que ele ignora. [Deus sabe todas as coisas dos céus e da terra: deste cosmos imenso do qual o nosso sistema solar é um átomo ou melhor, nem é sequer, um átomo do pó; Deus conhece as leis físicas e psicológicas; morais e espirituais; tudo ele sabe e conhece, pois tudo e a todos Ele criou; é a obra maravilhosa, perfeita, e do agrado do próprio Deus. Dela não conhecemos nem um "dx de dx"; nem diferencial de diferencial; NADA conhecemos. O que quer o A. dizer, pois? Entendo que, ele se refere ao conhecimento de nós mesmos: atrevemo-nos, pela fé, a conhecer de nós o que Deus conhece; a nossa insuficiência perante Ele; a distância intransponível que nos separa de Deus; a nossa situação não apenas lastimável mas totalmente perdida pela suserania do pecado em nossa vida e pela nossa sujeição irrecorrível à lei da morte. É isto o que ousamos saber, juntamente com Deus e "ousamos" apenas pela fé; nunca diretamente, pois de outra forma seria arrogância nossa, a manifestação da milenar tendência da raça de se comparar com Deus, de se igualar a ele.
Todavia, mediante nossa reconciliação com Deus, em Jesus Cristo, ele nos perdoou cabalmente; transformou nossos pecados, vermelhos como o escarlate, na alvura da mais branca lã; perdoou, transformou, esqueceu! (Heb 10:17). "De nenhum modo me lembrarei de seus pecados". Ainda pela fé, reconciliado com Deus, o homem "ousa" ignorar os seus pecados, como Deus, SPONTE SUA**, resolveu ignorá-los e de fato os ignora].
A ousadia consiste no fato de que, humanamente, essa possibilidade nem sequer entra em cogitação; essa possibilidade apenas é admissível porque ela constitui o substrato de todas as possibilidades humanas; porque é a possibilidade que resta ao homem junto a Deus e em Deus, depois de todas as outras possibilidades se haverem esgotado.
Crer significa parar, calar, adorar, ignorar. [Pela fé], a diferença qualitativa entre Deus e os homens torna-se inconfundível.

KARL BARTH, “Carta aos Romanos”, Ed. Novo Século, 2003, págs. 308/311
*Alógeno (Dicionário Houaiss):
Rubrica: geologia.
que ou o que teve origem em local diferente de onde atualmente se encontra (diz-se de componente de rocha)
** "sponte sua" = expressão latina, que significa "por vontade própria"

Crer significa parar, calar, adorar, ignorar. [Pela fé], a diferença qualitativa entre Deus e os homens torna-se inconfundível.
Fonte:  (KARL BARTH, Carta aos Romanos, Ed. Novo Século, 2003, págs. 308/311) 
Via:  http://www.e-cristianismo.com.br/pt/textos/97-comentario-a-romanos-68-11