sábado, 16 de junho de 2012

John Piper – Quatro Razões para Buscar a Deus Apaixonadamente









Por que eu insisto que você deve seguir a Deus firmemente, ou, o que é a mesma coisa, por que nós devemos seguir a Cristo firmemente? Aqui estão quatro razões:

1. Para conhecê-Lo

Primeiro, nós devemos seguir a Cristo firmemente para conhecê-Lo. Filipenses 3.7-8: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor“. Paulo seguia a Cristo firmemente, renunciando todas as coisas das quais as pessoas normalmente se gloriam; e ele fazia isso para que pudesse conhecê-Lo.
Por quê? Porque conhecer a Cristo é uma riqueza que ultrapassa tudo o mais. A evidência da conversão é se você de fato se tornou um hedonista cristão. Hedonistas cristãos sempre seguem firmemente em busca da riqueza suprema. Eles alegremente vendem tudo em troca do tesouro escondido e da pérola de grande valor (Mateus 13.44-45). Nós devemos seguir a Cristo firmemente, porque não fazê-lo significa que nós não desejamos conhecê-lo. E não desejar conhecer a Cristo é um insulto ao Seu valor e um sinal de letargia ou morte espiritual em nós. Mas quando você segue a Cristo firmemente, para conhecê-Lo, a recompensa é a sua alegria e a glória Dele.

2. Para confirmar a nossa justificação

Segundo, nós devemos seguir a Cristo firmemente para confirmar a nossa justificação. A justificação se refere ao maravilhoso ato de Deus no qual Ele perdoa todos os nossos pecados e imputa a nós a Sua própria justiça, através da nossa fé em Cristo. Filipenses 3.8-9: “por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé”.
Filipenses 3.9 é claro: a justiça que Paulo busca é baseada na fé. Mas ele a está buscando! Como um cristão, ele considera todas as coisas como perda para ter a sua justificação. A fé que justifica é uma fé que renuncia os valores terrenos e busca a Cristo. Se a justificação depende da fé, e se renunciar ao mundo por considerá-lo como lixo é necessário para ter os benefícios da justificação, então está claro: a fé salvadora não é meramente uma única decisão por Cristo, mas é uma preferência contínua por Cristo sobre todos os outros valores. A busca de Cristo é a evidência da fé genuína em Cristo como o nosso tesouro. Portanto, nós devemos seguir a Cristo firmemente para confirmar a nossa justificação.

3. Porque nós somos tão imperfeitos

Nós devemos seguir a Cristo firmemente porque nós somos tão imperfeitos. Filipenses 3.12: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo”. Nós devemos seguir a Cristo firmemente porque nós somos tão deficientes. Um estudante fraco deveria buscar um professor particular. Pessoas míopes deveriam buscar um oftalmologista. Pessoas com a garganta inflamada deveriam tomar antibióticos. Alcoólicos deveriam buscar um grupo de apoio. Jovens aprendizes deveriam seguir o seu mestre em seu trabalho.
Não seguir a Cristo firmemente significa ou que você não confia em Seu poder e disposição para mudar as suas imperfeições, ou que você deseja se apegar às suas imperfeições. Em ambos os casos, Cristo está sendo desprezado e nós estamos perdidos.

4. Porque Ele nos conquistou para Si

A última razão pela qual nós devemos seguir a Cristo firmemente é que Ele nos seguiu firmemente e, de fato, nos conquistou para Si pela fé. Filipenses 3.12 novamente: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.” Essa sentença destrói a falsa lógica a qual afirma que, se Cristo nos encontrou, nós não mais precisamos buscá-Lo. Se Ele nos agarrou, nós não precisamos nos esforçar para agarrá-Lo.
Paulo argumenta exatamente o contrário: eu me esforço para ganhar a Cristo, porque Cristo já me ganhou. A conversão de Paulo não era como uma gaiola que o prendia, mas como uma catapulta que o lançava na busca da santidade. A graça irresistível de Cristo triunfando sobre a rebelião de Paulo e salvando-o do pecado não tornou Paulo passivo; ela o tornou poderoso!
Por John Piper © Desiring God. Website: desiringGod.org

sábado, 9 de junho de 2012

Nossa depravação humana – John Stott (1921-2011)




Eis aqui algumas palavras de Jesus:        

Convocando ele de novo a multidão, disse-lhes: Ouvi-me todos e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina... Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.  Jesus não pregou a bondade fundamental da natureza humana. Ele certamente acreditava na verdade veterotestamentária,  de que o ser humano,  tanto homem como mulher, foi criado à imagem de Deus; mas também acreditava que essa imagem havia sido maculada. Ele pregou o valor dos seres humanos, inclusive dedicando-se a servir a eles. Mas também ensinou que não valemos nada. Ele não negou que somos capazes de dar "coisas boas" aos outros, mas também acrescentou que, mesmo que façamos o bem, nem por isso deixamos de ser "maus".  E nos versículos citados acima ele fez importantes declarações sobre a extensão, a natureza, a origem e o efeito do mal nos seres humanos. 

Primeiro, ele ensinou sobre o alcance universal da maldade humana. Ele não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, nem algum indivíduo ou grupo particularmente corrupto. Pelo contrário, ele estava con¬versando com refinados, "justos" e religiosos fariseus, e então generalizou, falando sobre "um homem" e "homens". De fato, geralmente são as pessoas mais honestas que têm a mais profunda consciência de sua própria degradação. Tomemos como exemplo Dag Hammarskjöld, Secretário Geral das Nações Unidas de 1953 a 1961. Ele foi um servidor público profundamente comprometido, a quem W. H. Auden descreveu como sendo "um homem bom, grande e louvável". Mesmo assim, a visão que ele tinha quanto a si mesmo era muito diferente. Em sua coleção de obras autobiográficas, intitulada Markings, ele escreveu sobre "essa perversa contraposição do mal em nossa natureza", que nos leva a fazer até do nosso serviço aos outros "o fundamento para a nossa própria auto-estima e preservação da nossa vida".

Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre a natureza egocêntrica da maldade humana. Em Marcos 7 ele enumerou treze exemplos. O que há de comum entre todos eles é que cada um é uma afirmação do ego, seja contra o nosso próximo (inclusive homicídio, adultério, furto, falso testemunho e cobiça - violações da segunda metade dos Dez Mandamentos), seja contra Deus (sendo que "orgulho e insensatez" são claramente definidos no Antigo Testamento como negação da soberania de Deus e até da sua própria existência). Jesus resumiu os Dez Mandamentos em termos de amor a Deus e amor ao próximo, e todo pecado é uma forma de revolta egoísta contra a autoridade de Deus ou contra o bem-estar do nosso próximo.

Terceiro, Jesus ensinou que a maldade do homem é de origem interna. Sua fonte se encontra, não em um ambiente ruim, nem em uma educação falha (se bem que ambos possam exercer uma forte influência sobre jovens impressionáveis), mas, sim, em nosso "coração", nossa natureza herdada e pervertida. Quase se poderia dizer que Jesus nos introduziu ao freudianismo antes mesmo de Freud. Pelo menos aquilo que ele chama de "coração" é, em termos aproximados, equivalente ao que Freud chama de "inconsciente". Isso nos faz lembrar um poço bem profundo. A espessa camada de lama que jaz no fundo geralmente não se vê, e muito menos se suspeita. Mas quando as águas do poço são agitadas pelos ventos da emoção violenta, a imundície mais fétida e nojenta sai borbulhando das profundezas e irrompe na superfície: ódio, raiva, lascívia, crueldade, ciúmes e revolta. Em nossos momentos mais sensíveis nós somos atormentados pela nossa potencialidade para o mal. E de nada adiantam tratamentos superficiais.

Em quarto lugar, Jesus falou do efeito contaminador da maldade humana. "Todos estes males vêm de dentro", disse ele, "e contaminam o homem".  Para os fariseus, a contaminação era algo muito mais exterior e cerimonial; eles se preocupavam com alimentos limpos, mãos limpas e vasilhas limpas. Mas Jesus insistiu em dizer que a contaminação é algo moral, que vem de dentro. O que nos torna impuros aos olhos de Deus não é o alimento que entra em nós (que vai para o nosso estômago), mas o mal que sai de nós (que sai do nosso coração).

Todas as pessoas que já conseguiram ver, ao menos de relance, a santidade de Deus, foram incapazes de suportar essa visão, de tão chocadas que ficaram diante da sua própria e contrastante impureza. Moisés escondeu o rosto, com medo de olhar para Deus. Isaías gritou, horrorizado, chorando sua própria impureza e perdição.

Ezequiel ficou ofuscado, quase cego, ao ver a glória de Deus, e caiu de rosto em terra.  Quanto a nós, mesmo que nunca tenhamos tido, como esses homens, sequer uma visão momentânea do esplendor do Deus Todo-poderoso, sabemos muito bem que não temos condições de entrar em sua presença, seja agora ou na eternidade.

Ao dizermos isso, nós não estamos esquecendo a nossa dignidade humana, com a qual se começou este capítulo. Devemos, no entanto, fazer jus à avaliação do próprio Jesus sobre a maldade da nossa condição como seres humanos. Ela é universal (em todo ser humano, sem exceção), egocêntrica (uma revolta contra Deus e contra o próximo), íntima (brota do nosso coração, de nossa natureza caída) e aviltante (torna-nos impuros e, portanto, indignos diante de Deus).


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Se não fora o Senhor, ora diga Israel!



Ao olhar para trás na estrada áspera que percorremos, ao olhar para trás no sangrento campo de batalha em que lutamos, o que vemos? Entregues as nossas capacidades o mais fraco de nossos inimigos nos derrotaria. Não é muito  difícil começar na graça e logo nos desviarmos para outro evangelho: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho” ( Gálatas 1:6). Muitos estão dispostos a crer que a graça nos salva, mas que não é a graça que nos preserva.   

Como um homem que conhece seu coração poderia imaginar que ele mesmo poderia perseverar e não a graça operar a perseverança nele? Há um completo desamparo quando somos entregues mesmo as nossas melhores faculdades. Toda esperança só pode estar numa rocha inabalável: “Àquele que é poderoso para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria”  (Judas 1:24).

O único canto sobre perseverança que a Graça pode inspirar em nossos corações é o do Salmos 124 – “Se não fora o SENHOR, que esteve ao nosso lado, ora diga Israel... (Sl 124:1).

É enorme a quantidade de inimigos que um filho de Deus tem neste mundo. Eles são liderados pelo arqui-inimigo de nossas almas, satanás. Se a graça nos salvasse e depois deixasse a perseverança para nós, o fracasso seria certo. Se Deus não mantivesse a fé que Ele pôs em nosso coração, nossa fé fracassaria. Davi vê isso e diz que seus inimigos teriam prevalecido contra ele facilmente se não fosse a poderosa mão de Deus. Então ele registra a bondade de Deus em sustentá-lo: “Com força me impeliste para me fazeres cair, porém o SENHOR me ajudou ( Sl 118:13 ).

É a visão de que a Graça nos faz perseverar que inspira os cânticos em nossos corações. Davi atribui TODOS os triunfos a Deus. Não só precisamos de ajuda, mas de uma ajuda que nenhuma criatura poderia nos dar. Nosso inimigo é retratado como um leão em sua força, como uma serpente em sua astúcia e sagacidade, como um dragão em sua ferocidade. Tudo isso cairia sobre nós como as águas de um dilúvio avassalador.  Mesmo tendo sido salvos, como iríamos nos manter assim por um dia sequer? Não podíamos nos salvar e não podemos nos manter salvos. A malícia da Serpente sempre teria êxito se alguém infinitamente mais forte não se colocasse entre nós.

A quantidade de inimigos é enorme e o conflito diário gigantesco. Sem a graça poderíamos tomar a cruz de cada dia? Nossos corações jamais negariam a si mesmos se estivessem entregues a si próprios. Nossos pais fracassaram no Paraíso, quando não conheciam o pecado, nós venceríamos neste terrível campo de batalha?


“Se não fora o Senhor” nós teríamos caído em pecado em cada tentação.

“Se não fora o Senhor” nós teríamos desonrado o evangelho nos conflitos externos e nos conflitos internos.

“Se não fora o Senhor” nós teríamos sido esmagados por nossos inimigos.

“Se não fora o Senhor” nós teríamos desmaiado em nossas aflições.

“Se não fora o Senhor” teríamos sido enterrados pelo peso da cruz...


Só Deus sabe quão fundo no inferno estaríamos se tivéssemos ficado entregues aos nossos recursos.

Só Deus pode nos fazer perseverar por sua Graça. Nós precisamos que Ele nos sustente na infância, precisamos que Ele nos sustente na adolescência, precisamos que Ele nos sustente na juventude, na idade madura, na velhice – Ah! Se não fora o Senhor, ora diga Israel!

Nós precisamos que ele nos sustente na adversidade, precisamos que Ele nos sustente na prosperidade... Na nossa força nós só temos fraqueza e na nossa sabedoria loucura!

Nós precisamos que Ele nos sustente para que nossos próprios corações não nos enganem. Só a corrupção em nossos próprios corações, sem nenhum dos outros inimigos, nos venceria e destruiria em cem vidas se pudéssemos vivê-las.
A esperança da perseverança dos santos nunca esteve neles mesmos, mas na promessa de Deus. No verso 6 do Salmo 124 é dito: “Mas bendito seja o Senhor que não nos deu por presa aos seus dentes” – Nossa alma é colocada aqui como um cordeiro indefesso diante de um animal pronto as nos devorar.

Nós precisamos de ajuda agora como precisamos dela ontem. Precisamos dela hoje como precisaremos dela nos amanhãs dos amanhãs... até o segundo final neste mundo.

Nossa oração é: Senhor nos ajude ou nossos inimigos irão triunfar sobre nós! Senhor nos ajude ou nossa cruz se mostrará uma prova maior do que podemos suportar! Senhor nos sustente ou no dia da adversidade seremos destruídos.

Não confiamos em nós para perseverar, nos agarramos a promessa gloriosa de nosso Deus: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça” (Is 41:10).

Não passamos de bichinhos que poderiam ser esmagados por nossos inimigos. Em que nos refugiamos para perseverar até o fim? Quando vemos que somos fracos, vis, incompetentes e impotentes; Deus se inclina para falar conosco: “Não temas, tu verme de Jacó, povozinho de Israel; eu te ajudo, diz o SENHOR, e o teu redentor é o Santo de Israel” (Is 41.14). Que resistência tem um verme? Na promessa: “Eu te ajudo, diz o SENHOR, e o teu Redentor!”

Que loucura depositar a esperança da perseverança em nós mesmos. Como isso poderia acabar a não ser num desastre eterno? Mas sinta e se alegre com o peso da promessa de Deus! A fé que Ele criou, Ele sustenta! “Não tenha medo!” Essa promessa se estende a todos os tempos de nossa vida. Abrange todas as circunstâncias que ainda virão. Essa promessa pertence a todos os que foram regenerados, e ela nos asseguro que vamos triunfar sobre todos os nossos inimigos.

Sim, em nossa fraqueza a força de Deus se mostra onipotente como ela sempre foi. Sua graça é suficiente para nós para que TUDO redunde no louvor da sua graça.

O Criador no Trono colocou do nosso lado todo poder Onipotente! Esse, e só esse poder é inexpugnável! Vamos adorar como Davi e jamais cair na loucura de achar que nós e não Deus, é  “poderoso para impedir-nos de cair e para nos apresentar diante da sua glória sem mácula e com grande alegria”  (Judas 1:24).

“Bendito seja o SENHOR, que não nos deu por presa aos seus dentes. A nossa alma escapou, como um pássaro do laço dos passarinheiros; o laço quebrou-se, e nós escapamos.O nosso socorro está no nome do SENHOR, que fez o céu e a terra”. Salmos 124:6-8   


                                    Na Paz! – Josemar Bessa

terça-feira, 22 de maio de 2012

A ética da Igreja enquanto Corpo de Cristo



Eduardo Ribeiro Mundim

A Igreja é o Corpo de Cristo. Esta metáfora é empregada mais de uma vez nas Escrituras, de forma suficientemente claro para que não ser tomada como um acidente, uma ideia passageira.     

Ele é constituído livre e soberanamente por Deus Pai, que destina antes da criação do mundo o nosso destino, e o faz única e exclusivamente por amor.      

A quem pede Ele conselho? Chama, predestina, escolhe a quem deseja, no momento histórico que deseja, do modo como deseja. Se não é assim, como explicar a lista daqueles a quem Ele chamou para si? Mentirosos, ardilosos, assassinos, invejosos e fofoqueiros, adultos infantis, adúlteros, rebeldes, covardes, sádicos...

Dietrich Bonhoeffer escreveu que quando o pecado do meu irmão parece maior que o meu, é porque, na verdade, eu não conheço o tamanho do meu pecado.

Não há, na presença do Amor Santo, pecado maior ou menor. Na Sua presença, quem somos nós para julgarmos o pecado do irmão? para avaliarmos nosso pecado como menos ofensivo que o dele?

No nosso pecado somos todos iguais.

E somos escolhidos porque Deus deseja que todos sejam salvos pela graça, mediante a fé, como presente de Sua parte.

O Corpo é constituído por pessoas que nós não escolhemos. 

E temos a função de levar a mensagem de arrependimento e conversão a quem nós não gostamos, a quem nos incomoda:vestes, adereços, comportamento escandaloso, exercício da sexualidade, dificuldades sociais, odor, pelo que faz para garantir seu sustento. E a mensagem deve ser levada não para que este outro que me incomoda se transforme em alguém que me agrade, mas porque Deus Amor Santo espera que nós o façamos, de forma espontânea, como consequência natural da descoberta de sermos perdoados e aceito por Ele.

As duas grandes alianças via Israel e via Cristo têm diferenças importantes. Na primeira, entrava-se via nascimento natural, sem direito de escolha. Crescia-se e era-se educado dentro da Aliança, não podendo dela se afastar. Na segunda, entra-se através do novo nascimento, sobrenatural, individual, solitário, não testemunhado, parcialmente subjetivo. É uma decisão a ser conscientemente tomada, porque ouvir o chamado de Deus, responder positivamente à eleição realizada em Cristo antes da criação do mundo, implica em dois desdobramentos óbvios:

Não é possível desejar a aproximação com o Amor Santo sem que se deseje tomá-Lo como exemplo e desafio, com vistas à santificação pessoal.

A Aliança feita pelo sangue de Cristo não visa nosso próprio umbigo, mas o cumprimento da vontade de Deus; ela não se constitui por palavras, mas por ações que necessariamente são boas.

Fazer parte do corpo tem duas grandes dimensões éticas.

A primeira, da relação dos membros do Corpo com o Cabeça, Cristo, e com aquele que o constituiu, Deus Pai: “crescer e edificar-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza sua função”. E isto somente pode ocorrer se “estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus”.

A segunda, da relação dos membros do Corpo uns para com os outros. A metáfora do corpo, ilustração da sua realidade, obriga que os membros trabalhem em sintonia e concordância, cada um em sua função, a seu tempo. Obriga também que cada seja saudável, para que o corpo inteiro o seja. E para isto, atitudes pró-ativas são necessárias: “despir-se do velho homem”, “revestir-se do novo homem”.

Ativamente deve-se evitar, mesmo que se deseje, a imoralidade sexual, a impureza, a cobiça, as obscenidades, as conversas tolas, os gracejos imorais e inconvenientes. Porque aqueles que não evitam, mas que buscam de forma continuada atitudes semelhantes a estas, “não têm herança no Reino de Cristo e de Deus”. Porque aqueles a quem o Espírito de Deus testifica que são Seus filhos buscam a bondade, a justiça, a verdade, o que é agradável a Deus, inclusive no trato com as mui humanas e inevitáveis vivências da raiva, das tentações do enriquecimento desonesto (seja roubando o irmão, seja fraudando o imposto de renda) e do palavreado agressivo e ofensivo, da atração pela amargura, gritaria, calúnia.

Para que o Corpo cresça em harmonia não pode haver quem passe fome ou necessidade, tendo todos os membros de se relacionarem com bondade, identificando-se com o outro em suas dificuldades estejam elas onde estiverem (incluindo aquelas áreas tabus), exercitando o perdão mútuo – condição inegociável para se participar da Ceia do Senhor.

Estamos todos no mesmo barco: somos pecadores permanentes em busca de santidade, pessoal e social. Somos braço efetivo de Deus neste mundo caído e entre nós, para nos curarmos mutuamente e permanentemente, até que o Cabeça do Corpo venha, ou nós nos reunamos a Ele em nossa morte.   


Fonte: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/a-etica-da-igreja-enquanto-corpo-de-cristo

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Uma mudança surpreendente!




"Amados, agora somos filhos de Deus...!" 1 João 3:2-3


Apesar de ser comum as pessoas falarem em fraternidade universal, a Bíblia nunca fala dos homens assim. É dito a nós que somos criaturas de Deus. Não apenas criaturas, mas criaturas em estado de rebeldia e inimizade. Há uma separação entre o homem e Deus que está longe de ser superficial, ela é profunda e arraigada, na verdade, ele é a própria natureza humana. 

Essa alienação é tão profunda que para nos tornarmos filhos de Deus é necessário não um melhoramento, mas uma nova criação. Nova criação que é mais difícil do que a criação de todas as coisas, já que ao criar o mundo Deus apenas falou, mas para nos fazer novas criaturas ele morreu.


Na criação do universo não havia nada que se opunha a Deus, mas que mar de iniquidades se tornou o homem! A transformação operada agora, na regeneração, é maior do que a que vai acontecer quando morrermos. Pois é agora que recebemos a natureza que para sempre habitará em perfeita comunhão com Deus. Na morte e ressurreição receberemos novos corpos, mas a natureza que vai habitar a eternidade nós já recebemos.


Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo. 2 Coríntios 5:1


O que chamamos conversão em nossa geração, é algo completamente superficial – Alguém é chamado a frente, levanta a mão, repete uma oração... E é dito a ela: Pronto! Bem-vindo ao reino do Deus!!


Mas o fato é que “a restauração meramente exterior difere tanto da regeneração quanto a caiação de uma casa velha, caindo aos pedaços, difere de sua demolição com a edificação posterior de uma nova em seu lugar” -Augustus M. Toplady



Não! A Bíblia diz que a verdadeira filiação no presente, irá produzir inevitavelmente algumas marcas que autenticam a veracidade da entrada no Reino de Deus. De todos! Como disse William Secker: "Não há filhos natimortos na família da graça"
.

1)      Ousadia em seu trono da Graça.


Todas as palavras aí estão em contradição com o homem natural. É exatamente por fazer de si um deus, ou seja, não reconhecer o Trono de Deus, mas se sentar no “trono” do seu coração, é que o  homem vive num estado de rebelião.

Em segundo lugar todo homem natural odeia a Graça – pois aceitá-la é admitir seu total desamparo, falta de merecimento, aceitação de que merece a condenação e de que nele, homem natural, não habita bem algum. É a aceitação do fato de que Deus tem misericórdia de quem ele quer (por isso é Graça)...

Odiando o Trono e a Graça, em estado de inimizade, o homem natural não pode ir ao Trono – Que rebelde vai até o trono do verdadeiro Rei? Se vendo como um ser livre e merecedor, como ir ao Trono da Graça? E que rebelde pode ir ao trono do Soberano Senhor com ousadia?

Que transformações profundas e soberanas são necessárias para que um rebelde, alienado da vida de Deus, com medo da morte certa como preço de sua rebelião – pode ir ao Trono da Graça com ousadia. Uma nova natureza é a característica necessária para isso.


2)      Contrição na Sua cruz.


Esta marca da veracidade de nossa filiação a Deus é fruto da concordância do coração com a sentença pronunciada por Deus para tudo o que somos – quer as coisas que achávamos boas como as que achávamos más. Morte! Teus atos maus merecem a morte, teus atos de justiça merecem a morte, tua própria natureza merece a morte, e o inferno não é uma punição dura demais para a desonra que teus pecados trouxeram a glória de Deus.

Para concordar com esse veredicto de todo o coração, novo coração é necessário – essa é uma marca apenas daqueles de quem possa ser dito: “Agora somos filhos de Deus...” – Não é uma mudança superficial, é a transformação que vai contra tudo aquilo que o homem é por natureza.


3)      Amor a Sua Pessoa.


Essa marca expõe essa nova criação, já que esse amor é um amor sobre todas as coisas – o que inclui a nós mesmos. O coração natural do homem só pode ver Deus como seu adversário, porque em nossos corações podem habitar muitos deuses, mas o deus supremo do homem natural é ele mesmo, os outros são deuses vassalos. Mas o verdadeiro Deus deve ser único. Ou seja, o homem tem de ter desistido do reinado de sua vontade para a submissão completa de sua vontade...


4)      Contentamento com nossa sorte.


Se Deus Reina Soberanamente, já não sobra marcas de ingratidão. Essa é uma marca indelével do coração de um filho de Deus. Ao se firmar no amor de Deus que não pode determinar nada que não seja para nosso bem final, o clamor diário do coração é: “Faça tua vontade, faça tua vontade... faça aquilo que mais glorifique Teu glorioso nome. Toda expressão de descontentamento aponta para a direção oposta daqueles de quem é dito: “Agora somos filhos de Deus...” – A expressão comum deles é: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR”. (Jó 1:21). 


5)      Vitória sobre o mundo.


Todo homem natural ama o mundo e odeia Deus: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser”. (Rm 8:7); “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele”. 1 João 2:15 – Odiar o que amávamos e amar o que odiávamos necessita de uma transformação maior do que a que houve do caos para a ordem no Gênesis. É necessário uma “nova criação!” – E sem exceção, todos os que nascem de Deus vencem a atração irresistível que o mundo tinha sobre ele: “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo...” (1 Jo 5:4).


6)      Zelo pela glória de Deus.


O pecado e a vida do homem natural é exatamente o completo desprezo pela glória de Deus: “Em sua presunção o ímpio não o busca; não há lugar para Deus em nenhum dos seus planos” (Sl 10:4). Agora o Espírito Santo em seu coração desenhou um claro retrato do pecado – A máscara é retirada, o monstro é arrastado para luz, suas características horrorosas são reveladas...

Agora em todas as suas buscas essa é a questão: Deus será glorificado? Mesmo no comer e no beber? Na morte ou na vida? A paixão pela glória de Deus, com exata oposição ao desprezo anterior, governa seu coração. Seu canto sempre é um Soli Deo Gloria. "A adoção dá-nos o privilégio de filhos; a regeneração, a natureza de filhos" - Stephen Charnock

"Amados, agora somos filhos de Deus...!" 1 João 3:2-3

Bem-aventurados são estes!


"Que eles finjam como quiserem, mas a verdadeira razão por que alguém despreza o novo nascimento é a de odiar uma nova vida" - John Owen 


                                                                     
                                             Paz! - Josemar Bessa



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Não o Glorificaram como Deus - João Calvino (1509-1564)




Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.


Romanos 1:21

Tendo conhecimento de Deus. Ele claramente afirma, aqui, que Deus pôs o conhecimento de si mesmo nas mentes de todos os homens. Em outras palavras, Deus tem assim demonstrado sua existência por meio de suas obras a fim de levar os homens a verem o que não buscam conhecer de sua livre vontade, ou seja, que existe Deus. O mundo não existe por meios fortuitos nem procedeu de si mesmo. Mas é preciso notar sempre qual o grau de conhecimento em que permaneceram, como veremos a seguir.     

Não o glorificaram como Deus. Nenhuma concepção de Deus é possível ser formulada sem que se inclua eternidade, poder, sabedoria, bondade, verdade, justiça e misericórdia. Sua eternidade é evidenciada pelo fato de que ele mantém todas as coisas em suas mãos e faz que todas as coisas estejam em harmonia com ele. Sua sabedoria é percebida no fato de que ele dispôs todas as coisas em perfeita ordem. Sua bondade consiste em que não há nenhuma outra causa para que ele criasse todas as coisas nem existe alguma outra razão que o induza a preservá-las, senão sua bondade. Sua justiça se evidencia no modo como ele governa o mundo, visto que pune os culpados e defende os inocentes. Sua misericórdia consiste em que ele suporta a perversidade dos homens com inusitada paciência. E sua verdade consiste no fato de que ele é imutável. Aqueles, pois, que pretendem formular alguma concepção de Deus, devem dar-lhe o devido louvor por sua eternidade, sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade.

Visto que os homens têm deixado de reconhecer estes atributos em Deus, ao contrário o têm retratado imaginariamente como se fosse um fantasma insubstancial, tem-se dito, com justiça, que eles o têm impiamente despido de sua glória. Não é sem razão que Paulo adicione que nem lhe deram graças, pois não há ninguém que não esteja individado para com a infinita munificência divina, e somente por esta razão ele nos põe na condição de eternos inadimplentes diante de sua condescendência em revelar-se a nós. Mas seus pensamentos tornaram-se rateis, e seus corações insensatos se obscureceram, ou seja: renunciaram a verdade de Deus e se voltaram para a vaidade de seus próprios raciocínios, os quais são completamente indistinguíveis e impermanentes. Seu coração insensível, sendo assim entenebrecido, não pode entender nada corretamente, senão que se acha precipitado em erro e falsidade. Esta é a injustiça [da raça humana], ou seja: que a semente do genuíno conhecimento foi imediatamente sufocada por sua impiedade antes que pudesse medrar e amadurecer.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Heresia do Egocentrismo


John MacArthur

"Não negligencieis a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]
Hebreus 13.16


O egocentrismo não tem lugar na igreja. Nem devíamos dizer isso, mas, desde o alvorecer da era apostólica até hoje, o amor próprio em todas as suas formas tem prejudicado incessantemente a comunhão dos santos. Um exemplo clássico e antigo de egocentrismo fora de controle é visto no caso de Diótrefes. Ele é mencionado em 3 João 9-10, onde o apóstolo diz: "Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembradas as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja". 

Diótrefes anelava ser o preeminente em sua congregação (talvez até mais do que isso). Portanto, ele via qualquer outra pessoa que tinha autoridade de ensino – incluindo o apóstolo amado – como uma ameaça ao seu poder. João havia escrito uma carta de instrução e encorajamento à igreja, mas, por causa do desejo de Diótrefes por glória pessoal, ele rejeitou o que o apóstolo tinha a dizer. Evidentemente, ele reteve da igreja a carta de João. Parece que ele manteve em segredo a própria existência da carta. Talvez ele a destruiu. Por isso, João escreveu sua terceira epístola inspirada para, em parte, falar a Gaio sobre a existência da carta anterior.

Na verdade, o egoísmo de Diótrefes o tornou culpado do mais pernicioso tipo de heresia: ele rejeitou ativamente e se opôs à doutrina apostólica. Por isso, João condenou Diótrefes em quatro atitudes: ele rejeitou o ensino apostólico; fez acusações injustas contra um apóstolo; foi inóspito para com os irmãos e excluiu aqueles que não concordavam com seu desafio a autoridade de João. Em todo sentido imaginável, Diótrefes era culpado da mais obscura heresia, e todos os seus erros eram frutos de egocentrismo.

Em nosso estado caído, estado de carnalidade, somos todos assediados por uma tendência para o egocentrismo. Isto não é uma ofensa insignificante, nem um pequeno defeito de caráter, nem uma ameaça irrelevante à saúde de nossa fé. Diótrefes ilustra a verdade de que o amor próprio é a mãe de todas as heresias. Todo falso ensino e toda rebelião contra a autoridade de Deus estão, em última análise, arraigados em um desejo carnal de ter a preeminência – de fato, um desejo de reivindicar para si mesmo aquela glória que pertence legitimamente a Cristo. Toda igreja herética que já vimos tem procurado suplantar a verdade e a autoridade de Deus com seu próprio ego pretensioso.

De fato, o egocentrismo é herético porque é a própria antítese de tudo que Jesus ensinou ou exemplificou. E produz sementes que dão origem a todas as outras heresias imagináveis.

Portanto, não há lugar para egocentrismo na igreja. Tudo no evangelho, tudo que igreja tem de ser e tudo que aprendemos do exemplo de Cristo golpeia a raiz do orgulho e do egocentrismo humano.

Koinonia

As descrições bíblicas de comunhão na igreja do Novo Testamento usam a palavra grega koinonia. O espírito gracioso que essa palavra descreve é o extremo oposto do egocentrismo. Traduzida diferentemente por "comunhão", "compartilhamento", "cooperação" e "contribuição", esta palavra é derivada dekoinos, a palavra grega que significa "comum". Ela denota as ideias de compartilhamento, comunidade, participação conjunta, sacrifício em favor de outros e dar de si para o bem comum.

Koinonia era uma das quatro atividades essenciais que mantinha os primeiros cristãos juntos: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão [koinonia], no partir do pão e nas orações" (At 2.42). O âmago da "comunhão" na igreja do Novo Testamento era culto e sacrifício uns pelos outros, e não festividade ou funções sociais. A palavra em si mesma deixava isso claro nas culturas de fala grega. Ela foi usada em Romanos 15.26 para falar de "uma coleta em benefício dos pobres" (ver também 2 Co 9.3). Em 2 Coríntios 8.4, Paulo elogiou as igrejas da Macedônia por "participarem [koinonia] da assistência aos santos". Hebreus 13.16 diz: "Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]". Claramente, o egocentrismo é hostil à noção bíblica de comunhão cristã.

Uns aos outros

Esse fato é ressaltado também pelos muitos "uns aos outros" que lemos no Novo Testamento. Somos ordenados: a amar "uns aos outros" (Jo 13.34-35; 15.12, 17); a não julgar "uns aos outros" e ter o propósito de não por tropeço ou escândalo ao irmão (Rm 14.13); a seguir "as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros" (Rm 14.19); a ter "o mesmo sentir de uns para com os outros" e acolher "uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus" (Rm 15.5, 7). Somos instruídos a levar "as cargas uns dos outros" (Gl 6.2); a sermos benignos uns para com os outros, "perdoando... uns aos outros" (Ef 4.32); e a sujeitar-nos "uns aos outros no temor de Cristo" (Ef 5.21). Em resumo, "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3).

No Novo Testamento, há muitos mandamentos semelhantes que governam nossos relacionamentos mútuos na igreja. Todos eles exigem altruísmo, sacrifício e serviço aos outros. Combinados, eles excluem definitivamente toda expressão de egocentrismo na comunhão de crentes.

Cristo como cabeça de seu corpo, a igreja

No entanto, isso não é tudo. O apóstolo Paulo comparou a igreja com um corpo que tem muitas partes, mas uma só cabeça: Cristo. Logo depois de afirmar, enfaticamente, a deidade, a eternidade e a proeminência absoluta de Cristo, Paulo escreveu: "Ele é a cabeça do corpo, da igreja" (Cl 1.18). Deus "pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo" (Cl 1.22-23). Cristãos individuais são como partes do corpo, existem não para si mesmos, mas para o bem de todo o corpo: "Todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor" (Ef 4.16).

Além disso, cada parte é dependente de todas as outras, e todas estão sujeitas à Cabeça. Somente a Cabeça é preeminente, e, além disso, "se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam" (1 Co 12.26).

Até aquelas partes do corpo aparentemente insignificantes são importantes (vv. 12-20). "Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (vv. 18-19).

Qualquer evidência de egoísmo é uma traição de não somente o resto do corpo, mas também da Cabeça. Essa figura torna o altruísmo humilde em virtude elevada na igreja – e exclui completamente qualquer tipo de egocentrismo.

Escravos de Cristo

A linguagem de escravo do Novo Testamento enfatiza, igualmente, esta verdade. Os cristãos não são apenas membros de um corpo, sujeitos uns aos outros e chamados à comunhão de sacrifício. Somos também escravos de Cristo, comprados com seu sangue, propriedade dele e, por isso, sujeitos ao seu senhorio.

Escrevi um livro inteiro sobre este assunto. Há uma tendência, eu receio, de tentarmos abrandar a terminologia que a Escritura usa porque – sejamos honestos – a figura de escravo é ofensiva. Ela não era menos inquietante na época do Novo Testamento. Ninguém queria ser escravo, e a instituição da escravidão romana era notoriamente abusiva.

No entanto, em todo o Novo Testamento, o relacionamento do crente com Cristo é retratado como uma relação de senhor e escravo. Isso envolve total submissão ao senhorio dele, é claro. Também exclui toda sugestão de orgulho, egoísmo, independência ou egocentrismo. Está é simplesmente mais uma razão por que nenhum tipo de egocentrismo tem lugar na vida da igreja.

O próprio senhor Jesus ensinou claramente este princípio. Seu convite a possíveis discípulos foi uma chamada à total autorrenúncia: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me" (Lc 9.23).

Os doze não foram rápidos para aprender essa lição, e a interação deles uns com os outros foi apimentada com disputas a respeito de quem era o maior, quem poderia ocupar os principais assentos no reino e expressões semelhantes de disputas egocêntricas. Por isso, na noite de sua traição, Jesus tomou uma toalha e uma bacia e lavou os pés dos discípulos. Sua admoestação para eles, na ocasião, é um poderoso argumento contra qualquer sussurro de egocentrismo no coração de qualquer discípulo: "Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13.14-15).

Foi um argumento do maior para o menor. Se o eterno Senhor da glória se mostrou disposto a tomar uma toalha e lavar os pés sujos de seus discípulos, então, aqueles que se chamam discípulos de Cristo não devem, de maneira alguma, buscar preeminência para si mesmos. Cristo é nosso modelo, e não Diótrefes.

Não posso terminar sem ressaltar que este princípio tem uma aplicação específica para aqueles que estão em posições de liderança na igreja. É um lembrete especialmente vital nesta era de líderes religiosos que são superestrelas e pastores jovens que agem como estrelas de rock. Se Deus chamou você para ser um presbítero ou mestre na igreja, ele o chamou não para sua própria celebridade ou engrandecimento. Deus o chamou a fazer isso para a glória dele mesmo. Nossa comissão é pregar não "a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos [escravos], por amor de Jesus" (2 Co 4.5).


John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master's College and Seminary e do ministério "Grace to You"; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.


Traduzido por: Francisco Wellington Ferreira
Editor: Tiago Santos
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Publicado originalmente na Revista Tabletalk, nº 3, Vol. 36, do ministérioLigonier.