sábado, 23 de julho de 2016

Dupla identidade



Por Leonel Elizeu Valer Dos Santos


“Aconteceu naqueles dias que, sendo Moisés já homem, saiu a seus irmãos, e atentou para as suas cargas; viu que um egípcio feria um hebreu, homem de seus irmãos. Olhou a um e outro lado, vendo que não havia ninguém, matou ao egípcio, e escondeu-o na areia.” Êx 2;11 e 12

Moisés em sua dupla identidade. Formalmente egípcio, sentimentalmente, hebreu. Passeava entre os escravos, como um supervisor de Faraó, mas, ao ver um dos de seu sangue ferido, a identidade formal sucumbiu ante o laço de sangue, matou ao soldado que era dos “seus”, para defender um dos seus irmãos.

A dupla identidade funciona em filmes de super-heróis, mas, na vida, mais dia, menos dia, o que somos, digo, aquilo que prepondera em nosso ser, assoma, sobretudo, em momentos de crise. Vulgarmente se diz: “A ocasião faz o ladrão”. Isso é falso! A ocasião é a crise que manifesta o ladrão que habita no interior do homem ambíguo, que encena ser honesto, mas, oculta um ladrão. O íntegro não sucumbe a ocasiões favoráveis, antes, mantém sua integridade. Jamais vi a ocasião presa por roubo, sempre é o ladrão o culpado.

Porém, agir de coração como hebreu e seguir com privilégios da Corte egípcia era quase impossível; assim, “olhou a um e outro lado, vendo que não havia ninguém ali, matou ao egípcio, e escondeu-o na areia.” Certificou-se de que não haveria testemunhas, depois, ocultou o cadáver tentando enterrar com ele, seu feito. Acontece que, o próprio irmão que defendera, espalhou a notícia. Tinham um defensor “egípcio”; “E tornou a sair no dia seguinte, eis que dois homens hebreus contendiam; e disse ao injusto: Por que feres a teu próximo? O qual disse: Quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós? Pensas matar-me, como mataste o egípcio? Então temeu Moisés, e disse: Certamente este negócio foi descoberto.” Vs 13 e 14

O anseio de ser bem quisto pelos dois povos ao mesmo tempo se revelara impossível, desde então. Como, quem fica sobre o muro acaba levando pedradas de ambos os lados, não ficou nem egípcio, nem hebreu, teve que fugir, acabou no deserto de Midiã. O que O Eterno fez depois, com ele, é outra história; por agora estamos analisando a dupla identidade.

Quantos são “Crentes” acariciando a um ser mundano dentro de si, e, à crise de uma tentação mais incisiva escandalizam a Obra de Deus? Ou, outros que, tendo sido salvos, por uma picuinha qualquer, voltaram as costas pra igreja, não conseguem agir mais como mundanos, levam uma vida dupla, nem ímpio, nem santo, apenas uma confusão que não serve cabalmente ao inimigo, nem, presta pra obra de Deus?

Tiago fez da duplicidade o tema de sua epístola. “Peça-a, ( sabedoria ) porém, com fé, em nada duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento, lançada de uma para outra parte. Não pense, tal homem, que receberá do Senhor alguma coisa. O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.” 1;6 a 8 O primeiro duplo, crente incrédulo, pede a coisa certa, e duvida. Não vai receber.

“Se alguém é ouvinte da palavra, não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque contempla a si mesmo, vai-se, e logo esquece de como era.” O segundo duplo, o não praticante. A Palavra é boa como teoria, mas, na prática, prefere fazer as coisas do seu jeito mesmo.

Temos ainda o teórico, bom de propaganda e ruim de produto. “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” 2;14 Nos lábios, amor, nos atos, indiferença.

O duplo de língua. “Com ela bendizemos a Deus Pai, com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto se faça assim.” 3;9 e 10

Enfim, todas essas duplicidades são traços de um, que, como Moisés, ansiava pertencer a dois povos. Naquele caso era fisicamente mesmo. No nosso, a duplicidade possível é espiritual; Tiago resume: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” 4;4

Finalmente, uma tomada de posição: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, ele fugirá de vós. Chegai-vos a Deus, ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; vós de duplo ânimo, purificai os corações.” Tg 4;7 e 8

Se nossa escolha é a ditosa sina de ovelhas, que nossa dieta não seja de lobos; teríamos que comer a nós mesmos, numa autofagia espiritual.


Fonte: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/dupla-identidade

domingo, 17 de julho de 2016

Todas as experiências Espirituais podem ser Falsificadas


Por Josemar Bessa


              - Olhemos isto tendo em vista o ensino de Jonathan Edwards -

Se alguém tem muitos tipos diferentes de inclinações espirituais, isso é outro sinal não confiável, que não pode ser usado para determinar se a sua espiritualidade é verdadeira ou falsa. Existem imitações de todas as afeições verdadeiras. A maioria de nós sabe que o amor, por exemplo, pode ser fingido facilmente. Namorados e namoradas que juraram amar-se de verdade mais tarde mostraram que seu 'amor" era paixão desenfreada ou interesse próprio grosseiro. Talvez nós mesmos tenhamos dito a outras pessoas que as amávamos, e só mais tarde percebemos que não sabíamos nem o mais elementar sobre o amor. A Bíblia está cheia dessas declarações de amor superficiais. Por exemplo, veio um mestre da lei que jurou a Jesus que o seguiria por onde quer que fosse. Mas quando Jesus replicou que nem sempre sabia se teria nem mesmo um quarto à noite, o homem foi embora (Mt 8.20). As multidões apregoaram sua devoção a Jesus, mas o abandonaram quando ele se tornou politicamente incorreto.

Arrependimento religioso do pecado também pode ser fingido. Faraó, por exemplo, parece ter-se arrependido sinceramente depois da sétima praga (granizo). Ele se lamentou diante de Moisés: "Esta vez pequei; o Senhor é justo, porém eu e o meu povo somos ímpios. Orai ao Senhor; pois já bastam estes grandes trovões e a chuva de pedras. Eu vos deixarei ir, e não ficareis mais aqui" (Êx 9.27-28). Assim que o granizo parou, porém, "tornou a pecar, e endureceu o seu coração" (Êx 9.34). Novamente recusou-se a deixar os israelitas sair do Egito.

Há relatos de adoração falsa na Bíblia. Lemos dos samaritanos no século VIII a.C, que "temiam o Senhor e, ao mesmo tempo, serviam aos seus próprios deuses" (2Rs 17.33). Gratidão e alegria também podem ser falsos. Pense nos ouvintes comparados ao solo pedregoso na parábola do semeador e da semente que Jesus contou. São pessoas que ouvem o evangelho e o recebem com gratidão e alegria, mas depois se desviam, quando vêm dificuldades e perseguição (Mt 13.20-21). Podemos dizer a mesma coisa de zelo e esperança. Os judeus do tempo de Paulo tinham "zelo por Deus, porém não com entendimento" (Rm 10.2). Os fariseus tinham a esperança convicta (a palavra expectativa está mais perto do significado do termo grego geralmente traduzido por "esperança") de que estavam indo para o céu, mas, de acordo com Jesus, eles estavam tristemente enganados (Mt 23.13-15).

Também é importante reconhecer que as afeições falsas geralmente andam juntas. Cada afeição falsa quase sempre faz parte de um conjunto. Veja as ações da multidão depois que Jesus ressuscitou Lázaro. Eles estavam cheios de várias afeições falsas. Eles se mostravam atraídos por Jesus, pois viajaram distâncias grandes para ouvi-lo, afirmaram amá-lo ao exclamar hosana, evidenciaram reverência ao colocar suas vestes exteriores no caminho para que ele pudesse pisar macio, cantaram cânticos de gratidão e louvor, e demonstraram ter zelo pelo reino de Deus quando exclamaram: "Bendito o que vem em nome do Senhor e que é Rei de Israel!" (Jo 12.13). O ruído dos seus cânticos e exclamações encheu o ar com o que parecia ser um júbilo santo. Por que as afeições falsas andam juntas? Porque, assim como o amor verdadeiro inspira várias outras afeições verdadeiras, o amor falso desperta muitas outras afeições falsas. Edwards definiu uma conversão falsa como uma constelação de afeições falsas. Em primeiro lugar, ele escreveu, a pessoa está aterrorizada e desesperada porque ouviu uma mensagem prometendo a condenação aos que não são convertidos. Imaginar os tormentos mentais e físicos do sofrimento eterno no inferno enche-a de horror. Em segundo lugar, Edwards acha que o diabo lhe envia uma visão ou voz prometendo-lhe salvação. "Você é um dos preferidos de Deus", sussurra o diabo. A pessoa imediatamente se enche de alegria e gratidão. Ela fica emocionada com a repentina suspensão da sentença e não consegue parar de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus para com ela, insistindo com eles para que louvem a Deus. Ela reconhece que é indigna desse presente glorioso e fala abertamente de seu pecado.

Só que sua humildade recém-encontrada não é mais genuína que a do rei Saul. Ao ouvir que tinha sido escolhido como rei, ele protestou: "Porventura, não sou benjamita, da menor das tribos de Israel? E a minha família a menor de todas as famílias da tribo de Benjamim? Por que, pois, me falas com tais palavras?" (lSm 9.21). A falsa humildade tem uma semelhança esquisita com a humildade genuína que Davi mostrou quando foi escolhido para o trono: "Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?" (2Sm 7.18).

O novo "convertido" gosta de passar tempo com os que reconhecem sua conversão e sente o que ele imagina ser indignação justa por aqueles que não o fazem. Ele nega-se a si mesmo para promover sua nova causa e aqueles que o apóiam.

Infelizmente, diz Edwards, essa é uma conversão sem o verdadeiro arrependimento. Por isso ela é falsa. Muitas afeições religiosas são manifestas, mas elas são falsas, porque brotam do amor próprio, disfarçado de amor por Deus. Edwards diz que este padrão de experiência espiritual pode provir ou de influência demoníaca ou da natureza humana (dentro da tendência de aliviar o terror religioso e reforçar a auto-estima). João da Cruz, o grande escritor místico do século XVI, disse a mesma coisa. João escreveu que o diabo muitas vezes aumenta o fervor dos orgulhosos e transforma suas virtudes em vícios. Ao mesmo tempo João alertou que muitos desejos fortes em relação a Deus ou às coisas espirituais são simplesmente o resultado dos desejos humanos e naturais.

sábado, 9 de julho de 2016

O que podemos saber sobre Deus?


Por R. C. Sproul


O que podemos saber sobre Deus? Essa é a pergunta mais básica da teologia, pois o que podemos saber sobre Deus e se podemos saber algo sobre ele de fato determina o alcance e o conteúdo do nosso estudo. Aqui devemos considerar o ensinamento dos maiores teólogos da história, afirmaram a“compreensibilidade de Deus”. Ao usar o termo incompreensível, eles não se referem a algo que somos incapazes de compreender ou conhecer de fato. Teologicamente falando, dizer que Deus é incompreensível não significa dizer que Deus é totalmente desconhecido; quer dizer que nenhum de nós pode compreender Deus exaustivamente.

A incompreensibilidade está relacionada a um princípio fundamental da Reforma Protestante o finito não pode conter (ou entender) o infinito. Os seres humanos são criaturas finitas, portanto nossas mentes sempre trabalham a partir de uma perspectiva finita. Nós vivemos, movemos e existimos em um plano finito, mas Deus vive, move e existe no infinito. O nosso entendimento finito não pode conter um sujeito infinito; por isso, Deus é incompreensível. Este conceito representa uma espécie de freio a nos alertar para que não pensemos que captamos e dominamos cada detalhe sobre as coisas de Deus. A nossa finitude sempre limita nossa compreensão de Deus.

Se não compreendemos a doutrina da incompreensibilidade de Deus, podemos facilmente cair em dois erros graves. O primeiro erro diz que, uma vez que Deus é incompreensível, ele deve ser totalmente incognoscível, e qualquer coisa que dissermos sobre Deus é sem sentido. Mas o cristianismo afirma a racionalidade de Deus juntamente com a incompreensibilidade de Deus. Nossas mentes só podem ir até certo ponto na compreensão de Deus, e para conhecê-lo precisamos de sua revelação. Mas essa revelação é inteligível, não irracional. Não é conversa fiada, não é algo sem sentido. O Deus incompreensível se revelou verdadeiramente.

Aqui nós aludimos ao princípio reformacional de que Deus é ao mesmo tempo oculto e revelado. Há uma dimensão misteriosa de Deus que nós não conhecemos. No entanto, não somos deixados na escuridão, tateando em busca de um Deus escondido. Deus também se revelou, e isto é fundamental para a fé cristã. O cristianismo é uma religião revelada. Deus, o criador, revelou-se de maneira manifesta no glorioso teatro da natureza. Isto é o que chamamos de “revelação natural”. Deus também se revelou verbalmente. Ele falou, e nós temos sua Palavra escriturada na Bíblia. Aqui nós estamos falando sobre a revelação especial, a informação que Deus nos dá e que nunca poderíamos descobrir por conta própria.

Deus permanece incompreensível porque ele se revela sem revelar tudo o que há para saber sobre ele. “As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e aos nossos filhos, para sempre” (Dt 29.29). Não é como se nós não tivéssemos nenhum conhecimento de Deus, ou como se tivéssemos conhecimento pleno de Deus; em vez disso, temos um conhecimento funcional de Deus que é útil e essencial para nossas vidas.

Isso levanta a questão de como podemos falar significativamente sobre o Deus incompreensível. Os teólogos têm uma tendência infeliz de oscilar entre dois polos. O polo do ceticismo, que foi considerado acima, assume que a nossa linguagem sobre Deus é totalmente sem sentido e não tem nenhum ponto de referência em relação a ele. O outro polo é uma forma de panteísmo que falsamente assume que capturamos ou abarcamos Deus. Nós nos desviamos desses erros quando entendemos que nossa linguagem sobre Deus é construída por analogia. Podemos dizer como Deus se parece, mas assim que nós igualamos o que quer que usemos para descrever Deus com a sua essência, cometemos o erro de pensar que o finito pode conter o infinito.

Historicamente, vemos o vacilar entre os dois erros já referidos no liberalismo protestante e na neo-ortodoxia. A teologia liberal do século XIX identificou Deus com o fluxo da história e com a natureza. Promoveu um panteísmo em que tudo era Deus e Deus era tudo. Contra esse pano de fundo, a neo-ortodoxia se opôs a identificar Deus com a criação, e procurou restaurar a transcendência de Deus. Em seu zelo, teólogos neo-ortodoxos falaram de Deus como “totalmente outro”. Essa ideia é problemática. Se Deus é totalmente outro, como se conhece qualquer coisa sobre ele? Sendo Deus totalmente diferente de nós, como ele poderia se revelar? Que meios ele poderia usar? Ele poderia se revelar através de um pôr do sol? Ele poderia se revelar através de Jesus de Nazaré? Se ele fosse totalmente diferente dos seres humanos, que base comum para a comunicação entre Deus e a humanidade poderia haver? Se Deus é totalmente diferente de nós, ele não tem nenhuma maneira de falar conosco.

O entendimento de que nos relacionamos com o Senhor por meio de analogia resolve o problema. Há um ponto de contato entre o homem e Deus. A Bíblia nos diz que somos criados à imagem de Deus (Gn 1.26-28). Em certo sentido, os seres humanos são semelhantes a Deus. Isso torna possível a comunicação. Deus colocou essa capacidade de comunicação na criação. Nós não somos Deus, mas somos semelhantes a ele porque carregamos sua imagem e somos feitos à sua semelhança. Portanto, Deus pode se revelar a nós, não em sua língua, mas na nossa. Ele pode falar conosco. Ele pode se comunicar de uma maneira que podemos entender; não completamente, mas real e significativamente. Se você se livrar da analogia, acabará no ceticismo.


R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. É ministro presbiteriano, pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. É fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências, autor de mais de sessenta livros, vários deles publicados em português, e editor geral da Reformation Study Bible.

Tradução: João Paulo Aragão da Guia Oliveira. Revisão: Yago Martins. © 2016 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website:MinisterioFiel.com.br Original: O que podemos saber sobre Deus?


terça-feira, 28 de junho de 2016

A melhor oração de todas









Por Martinho Lutero


Vocês, orem assim: Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. (Mateus 6.9)

Após ter denunciado orações pomposas e sem sentido, Cristo apresentou uma esplêndida e curta oração dele próprio. Com ela, ele nos instruiu sobre como orar e sobre o que devemos orar. Ele nos deu uma oração que engloba uma variedade de necessidades. Por si mesmas, essas necessidades deveriam nos obrigar a abordar Deus diariamente com essas poucas palavras facilmente lembradas. Nenhum de nós pode se desculpar dizendo que não sabemos como orar ou pelo que orar.

Orar a oração do Pai-Nosso todos os dias certamente é um hábito que vale a pena, especialmente para pessoas comuns e crianças. Nós podemos orá-la de manhã, à noite e à mesa da refeição – em qualquer horário. Ao fazer essa oração juntos, trazemos nossas necessidades diante de Deus.

Como foi-nos dito muitas vezes, a oração do Pai-Nosso é a melhor oração que alguém poderia ter criado ou que já foi enviada do céu. Pelo fato de Deus, o Pai, ter dado ao seu Filho palavras para a oração e lhe enviado para apresentá-la, sabemos sem dúvida que essa oração agrada ao Pai imensamente.

Já no início da oração, com as palavras “Pai nosso”, Jesus nos lembra do que Deus ordena e promete. Deus insiste que lhe prestemos o respeito, a honra e a reverência que ele merece, assim como os pais terrenos esperam de seus filhos. Deus Pai deseja também que creiamos que ele satisfará as nossas necessidades. E assim, porque confiamos que ele nos dará o que prometeu, podemos orar a ele com confiança no nome de Cristo, nosso Senhor.


>> Retirado de Somente a Fé – Um Ano com Lutero. Editora Ultimato.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Deus não age somente no extraordinário



Por Michael Horton


Radical. Épico. Revolucionário. Transformador. Impactante. Transformador de vida. Definitivo. Extremo. Impressionante. Emergente. Alternativo. Inovador. No limite. A próxima onda. Descoberta explosiva.

Provavelmente, você pode adicionar outros termos à lista de modificadores que se tornaram, ironicamente, parte das conversas comuns na sociedade e na igreja de hoje. A maioria de nós já ouviu expressões como essas tantas vezes que elas já se tornaram um lugar-comum. Mesmo que os anúncios nos tenham deixado um pouco exaustos, estamos ansiosos para levar as coisas para “um outro nível”.

 “Comum” deve ser uma das palavras mais solitárias do nosso vocabulário hoje. Quem quer um adesivo de carro que anuncie para o bairro: “Meu filho é um estudante comum da escola estadual local”? Quem quer ser essa pessoa comum que vive em uma cidade comum, é um membro de uma igreja comum, tem amigos comuns e trabalha em um emprego comum? Nossa vida tem que contar para alguma coisa. Temos que deixar a nossa marca, ter um legado, fazer a diferença. Precisamos ser discípulos radicais, levar nossa fé a um nível totalmente novo. E tudo isso deve ser algo que posa ser gerenciado, medido e mantido. Temos que fazer jus ao nosso perfil no Facebook.

E, no entanto, sinto uma inquietação crescente com esta inquietação. Alguns têm se cansado das chamadas constantes à mudança radical por meio de métodos novos e melhorados. Essas pessoas estão menos certas de que querem aderir ao próximo movimento ou trilhar novos caminhos para a grandeza. Rod Dreher observa:

Cotidianidade é o meu problema. É fácil pensar sobre o que você faria em uma guerra, ou se um furacão atingisse a cidade, se você passasse um mês em Paris, se o seu candidato ganhasse a eleição, se você ganhasse na loteria ou comprasse aquela coisa que você realmente queria. É muito mais difícil imaginar como você vai conseguir vencer o dia de hoje sem se desesperar.

Em seu livro sobre sua irmã, The Little Way of Ruthie Leming (“O pequeno caminho de Ruthie Leming”), Dreher sinaliza uma crescente sensação de cansaço com o culto ao extraordinário.

Inquietos pela próxima grande novidade

Estou convencido de que uma das razões para a nossa obsessão com o ser extraordinário é a cultura do reavivamento que moldou o protestantismo americano. Especialmente através do evangelista Charles G. Finney (1792-1875), o reavivalismo adotou uma teologia centrada no homem e encontrou métodos adequados para isso. Ao colocar a salvação nas mãos do indivíduo endurecido, o evangelista precisava de “novas medidas suficientes para induzir o arrependimento”. Como Richard Hofstadter observou, “o sistema de estrelato não nasceu em Hollywood, mas no rastro das cruzadas de evangelismo”. O foco não estava tanto no evangelho e nos meios de graça apontados por Deus, mas no evangelista e em seus métodos para produzir avivamento.

O raciocínio era de que a mensagem e os métodos instituídos por Cristo eram muito fracos, comuns demais. Não é o que acontece na igreja e em casa durante toda a semana que realmente importa, mas sim o dia em que o reavivamento chegou à cidade e você foi “gloriosamente salvo”, como minha avó costumava dizer.

Um contemporâneo de Finney, o pastor e teólogo reformado John W. Nevin, contrastou “o sistema do banco” (o precursor da chamada ao altar) e “o sistema do catecismo”:

A antiga fé Presbiteriana, na qual nasci, foi baseada na ideia de uma religião da família da aliança, em membresia na igreja por um ato santo de Deus através do batismo e em seguida em uma formação catequética regular do jovem, com referência direta a sua vinda à mesa do Senhor. Em suma, tudo procedia da teoria de uma religião educacional e sacramental.

Estes dois sistemas, Nevin concluiu, “envolvem, no fim das contas, duas teorias diferentes de religião”. A conclusão de Nevin foi justificada pelos desenvolvimentos subsequentes.

Perto do fim do seu ministério, ao considerar a condição de muitos que tinham experimentado seus reavivamentos, o próprio Finney se perguntou se esse anseio sem fim por experiências cada vez maiores poderia levar à exaustão espiritual. Suas preocupações se mostraram fundamentadas. A área onde os avivamentos de Finney foram especialmente dominantes agora é chamada por historiadores de o “distrito incinerado”, um lugar fértil tanto para a desilusão quanto para a proliferação de seitas esotéricas. Este tem sido o ciclo vicioso do reavivalismo evangélico desde então: um pêndulo entre o entusiasmo e desilusão, em vez de amadurecimento constante em Cristo através da participação na vida comum da comunidade da aliança.

Se o crescimento gradual em Cristo é trocado por uma experiência radical, não é de se estranhar que muitos comecem a procurar a próxima grande novidade assim que a mais recente experiência marcante se vai. Mesmo em minha própria vida, eu testemunhei (e participei de) um desfile de movimentos radicais. E agora, de acordo com a revista Time, o “novo calvinismo” é uma das principais tendências que estão mudando o mundo. Este movimento também tem sido identificado como dos “jovens, inquietos e reformados”. Mas, enquanto ele for definido pela inquietação juvenil, ele pode tender a deformar o que significa ser reformado.

Quando eram pescadores mais jovens, meus filhos não conseguiam deixar suas linhas na água tempo suficiente para pegar qualquer coisa viva. Eles ficavam sempre recolhendo a linha para ver se tinham apanhado algo. Então, quando quiseram plantar morangos com minha esposa, seu entusiasmo inicial logo se transformou em tédio quando, depois de apenas alguns dias, não viram qualquer fruto.

Ser jovem é ser inquieto. Ficamos perdidos em devaneios impacientes e impulsos egoístas. Mas somos chamados várias vezes no Novo Testamento a crescer, a amadurecer, a deixar nossas coisas de menino. Somos chamados a submeter-nos aos mais velhos, a apreciar a sabedoria que não abrange apenas anos, mas gerações, e a perceber que não temos todas as respostas. Nós não somos as estrelas de nosso próprio filme. Se todo o aparato da vida da igreja for projetado por e para uma cultura jovem, então nós nunca cresceremos.

Então, pelo menos de certa forma, a nossa inquieta impaciência com o comum não é apenas influência de nossa cultura, mas também influência de pontos de vista pouco sólidos do discipulado cristão que moldaram a cultura ao longo de gerações.

Renovando o respeito pelo comum

Antes de mais nada, qualquer renovada apreciação pelo comum começa com Deus. É claro que Deus dificilmente pode ser considerado “comum”, contudo, ele tem prazer em trabalhar de formas comuns. Nosso Deus trino poderia fazer tudo sozinho, direta e imediatamente. Afinal, ele disse: “Haja luz”, e houve luz (Gn 1.3). No entanto, ele também disse: “produza a terra relva”. E “a terra, pois, produziu relva” (v. 12). Deus não é menos fonte última da realidade quando está trabalhando dentro da criação para que ela “produza” seus propósitos do que quando está diretamente chamando as coisas à existência.

Na Providência, a forma comum de Deus trabalhar deve nos surpreender com admiração. O que poderia ser mais comum do que o nascimento de uma criança? Não precisamos chamá-la de milagre para nos admirarmos com a obra de Deus. Mesmo a forma de trabalho normal de Deus é estupenda. Embora os profetas e apóstolos tenham sido chamados para um serviço extraordinário, eles eram pessoas comuns que comunicavam a Palavra de Deus em linguagem comum.

Vemos essa diversidade até mesmo na Encarnação. Deus assumir nossa carne no ventre de uma virgem não é nada menos que uma intervenção direta e milagrosa na história. Ainda assim, ele assumiu sua humanidade a partir de Maria pela forma comum, por meio de uma gravidez normal de nove meses. O parto do Deus encarnado tampouco foi de forma milagrosa. Ele também cresceu em aspectos comuns, através de meios comuns: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2.52).

Além disso, o milagre extraordinário do novo nascimento vem até nós do alto, mas somos unidos a Cristo através da pregação comum do evangelho. Algumas conversões são radicais, outras são graduais. Em quaisquer casos, é obra milagrosa de Deus através dos meios comuns de graça.

Em todas estas formas, Deus é o ator, mesmo quando age por meio de suas criaturas. Nós não subimos até Deus; antes, ele desce até nós e nos comunica graça através de palavras e ações que podemos compreender.

Comum não significa medíocre. Atletas, arquitetos, filantropos e artistas podem atestar a importância da fidelidade diária em tarefas mundanas para que se chegue à excelência. Porém, mesmo que não sejamos pessoas de destaque em nossos vários chamados, é suficiente saber que somos chamados por Deus para manter uma presença fiel em seu mundo. Nós olhamos para Deus com fé, e para o nosso próximo com amor e com boas obras. Você não precisa transformar o mundo para ser fiel como mãe, pai, irmão, membro da igreja ou vizinho.

E, quem sabe? Talvez, se descobrirmos as oportunidades do comum, um carinho pelo familiar e uma admiração pelo ordinário, podemos acabar sendo radicais, afinal.


Michael Horton. © 2014 Ligonier. Original: Ordinary Christian Work.
Este artigo faz parte da edição de agosto de 2016 da revista Tabletalk.

Tradução: João Paulo Aragão da Guia Oliveira. Revisão: Yago Martins. © 2016 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Original: Deus não age somente no extraordinário


Fonte: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2016/06/deus-nao-age-somente-no-extraordinario/

quarta-feira, 15 de junho de 2016

INCONFORMISMO

Por João Marcos Bezerra


Quando ouvimos falar sobre inconformismo o que vem a nossa mente? O que é ser inconformado? Em Rm 12.2 diz: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (RA). A NVI traz: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente”. Ou seja, ser inconformado é não se amoldar. Mas, não se amoldar a quê? Ser inconformado com o quê? Com o sistema que governa o mundo pecaminoso.
Os discípulos de Jesus devem seguir o exemplo do Mestre e seguir o padrão de Deus para nós. E onde está este padrão? Na Bíblia! A Revelação do Criador para a humanidade. Ela apresenta diversas orientações para vivermos da melhor maneira no mundo e de como seguir a vontade do Senhor. Infelizmente, não damos o real valor e aplicação da Palavra em nossas vidas. Por isso, amoldamos a nossa vida ao padrão deste mundo.
John Stott destaca quatro obstáculos a nossa vida cristã que quero compartilhar aqui com vocês. A primeira delas é o Pluralismo, que, em linhas gerais, defende que todos os tipos de crenças são importantes para a humanidade. Este desafio “rejeita as alegações cristãs de perfeição e singularidade, e entende a tentativa de converter qualquer pessoa... uma atitude de arrogância total”. Então, esta tendência afirma que Cristo não é o único caminho a Deus, negando João 14.6.
Então, como devemos enfrentar o Pluralismo como cristãos? Em 2Timóteo 2.15 diz que devemos nos apresentar como obreiro aprovado que maneja bem a Palavra da Verdade; e em 1Pedro 3.15 está escrito que temos que está preparado para responder com mansidão e temor a todo aquele que pedir a razão da nossa esperança. Então, precisamos ter humildade para ouvir e respeitar as crenças dos outros, mas também ter convicção daquilo que cremos e nunca abrir mão de dizer que só existe um único Deus, criador dos céus e da terra; que Seu Filho, Jesus Cristo, é o único caminho, a verdade e a vida; e que é por meio deste que há salvação.
O segundo desafio que enfrentamos atualmente é o Materialismo. A sede pelo ter é o que governa a humanidade hoje. Quem não deseja ou já desejou esbanjar e viver no luxo? Esta é uma tendência que pode colocar em risco o nosso crescimento espiritual, pois as coisas materiais podem tomar o lugar do Senhor em nosso coração. Por isso, em Mateus 6.24 diz que não podemos servir a Deus e as riquezas, devido o poder que este pode exercer em nós.
O apóstolo Paulo traz diversas referências para orientar o povo de Deus na vitória sobre o materialismo. Em Filipenses 4.11 escreve que ele mesmo aprendeu a se contentar com qualquer situação, seja fartura ou pobreza. Em 1Timóteo 6.6 diz que “grande fonte de lucro é a piedade com contentamento”. Com isso, é importante lembrar que devemos ser gratos ao Senhor pelo que temos, confiar Nele para suprir as nossas necessidades e subordinar tudo o que é material ao serviço no Senhor.
O próximo desafio é algo diretamente ligado ao Pluralismo. Estou falando do Relativismo Ético. Todo tipo de padrão ético e moral é relativo, pois está diretamente relacionado à cultura em que está inserido. No filme “Código Gênesis” a professora de antropologia, numa conversa com o pastor, defende que tudo é relativo e que a postura absolutista dos cristãos é arrogante e inaceitável, mas quando é questionada sobre a circuncisão feminina em algumas tribos, ela se coloca como uma ativista contrária a esta prática, ou seja, o relativo dá lugar ao absoluto nesta questão para ela que defende o relativismo. Vejo que esta tendência causa muita confusão em certos momentos.
Infelizmente, alguns crentes admitem este Relativismo Ético e querem aceitar relações extraconjugais, sexo antes do casamento, casamento homossexual e o divórcio. O verdadeiro discípulo de Jesus deve defender a Bíblia como a Palavra da Verdade, que liberta (Jo 8.32), que é útil para ensinar, corrigir, instruir em justiça; “a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16) e para que, por meio desta Palavra, “todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.15). Assim como também o discípulo radical deve aplicar os mandamentos bíblicos em sua vida, baseado em João 14.21: “aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama”.
Por fim, o último desafio em que devemos ser inconformados é no Narcisismo e Hedonismo. O amor excessivo por si mesmo e a busca desmedida pelo prazer são tendências que governam a humanidade e tem levado muitos a acreditarem que olhando para dentro de si a solução para os problemas será encontrada. Infelizmente, isto também tem levado alguns cristãos a buscarem a Deus somente para alimentar o amor e o prazer próprio. Esta não é a postura do discípulo radical.
A Palavra de Deus deixa claro que devemos amar a Deus de todo o coração, alma, entendimento e forças e também ao próximo como a nós mesmos (Mc 12.30,31); que o amor por si mesmo é sinal dos últimos dias (2Tm 3.1-5); e que só achará a vida quem perde-la por amor a Cristo (Mt16.25). Então, o amor e o prazer próprio não encontra base nos ensinamentos de Cristo porque Ele mesmo se esvaziou da Sua natureza divina para tomar a forma de homem e nos servir (Fp 2.5-7).
Por fim, reescrevo o que John Stott escreve na página 20 do livro supracitado:
         Em face dessas tendências, somos chamados a um inconformismo radical, não a um conformismo medíocre. Diante do desafio do pluralismo, devemos ser uma comunidade de verdade, declarando a singularidade de Jesus Cristo. Diante do desafio do materialismo, devemos ser uma comunidade de simplicidade, considerando que somos peregrinos aqui. Diante do desafio do relativismo, devemos ser uma comunidade de obediência. Diante do desafio do narcisismo, devemos ser uma comunidade de amor.

1º Estudo da Série - Texto base: Rm 12.1,2; Lv 18.3,4


quinta-feira, 9 de junho de 2016

A face da fé, qual é?


Por Robson Santos Sarmento


‘’A maior e mais verídica manifestação da fé se chama gratidão e o quão singular, além de inegável, ter sido esse o ato e a decisão de Deus, em favor da humanidade, através de Jesus de Nazaré; em outras palavras, há, houve, haverá e não se removerá essa gratidão pelo ser humano, por pessoas, por gente, e não pergunte tanto sobre o por qual motivo; então, eis o chamado a ser seguido pelos discípulos das boas novas, ou seja, a gratidão pela vida que se encontra no próximo, ao qual também nos incluímos. ’’

A crucificação tinha se consumado e, num passe de mágica, num piscar de olhos, sem ninguém acalentar qualquer expectativa ou arriscar um palpite certeiro, Jesus aparece e os discípulos se enredam num estado de assombro, incertezas e perplexidades. 

Em meio a esse cenário, quantas questões e respostas pulsavam nos recônditos daqueles homens. Mesmo assim Jesus insiste e se apresenta como homem, com marcas e a nossa caminhada, por aqui, traz isso, em cada um de nós. Sem sombra de dúvida, marcas geradas pelas tradições, pelas relações humanas, diretas ou indiretas, pelas conquistas, pelas perdas, pelos não (s) e pelos sim (s). 

Deve ser dito, Jesus não fez nenhum avassalador discurso, nenhuma revelação apoteótica veio a tona, nenhuma profecia bombástica também, simplesmente, pediu algo para comer. Nada mais desprovido de efeitos de uma visão evangélica estonteante e de deixar muitos de boca aberta. O sol não parou, o mar não se abriu, pragas não foram lançado em face dos carrascos do Messias, o Império Romano não foi fulminado e, numa frontal postura, comeu um pedaço de peixe. 

De certo, essa maneira de agir vai a direção oposta as exigências dos homens pelas provas fenomenais, pelas intervenções supremas e isto nos leva a repensarmos sobre a nossa maneira de conceber o evangelho, dentro dessa tresloucada cultura dos excessos e das exigências. 

Grosso modo, Jesus parou, teve fome, não escondeu sua face de homem, mostrou e demonstrou os sentidos, os sentimentos, a paixão pela vida e enquanto fazia algo meramente de seres transitórios, transmitia aos discípulos o coração – útero de sua mensagem, ou seja, a ideia fundamental do arrependimento e do perdão de todo o processo de alienação, de marginalização, de exclusão, de sectarismo, de bons e maus, de justos e anátemas, de abominados e predestinados. Verdadeiramente, Jesus expressa a face da fé, ao qual não se encontra nos sinais, nos prodígios, nas maravilhas, porque são relâmpagos de seu maior e mais verídico efeito, ao qual arrisco denominar de gratidão. 

Aliás, digo isso, porque sem gratidão se torna impossível agradar a Deus e aqui vejo um chamado simples, objetivo, específico e intrigante da Igreja. Ultimamente, perdemos a capacidade para sentar e sentir os sabores de uma boa conversa, de uma prosa descompromissada para estabelecer quem está certo ou errado, de permitir ao Carpinteiro dos Recomeços remover as arestas, tirar os entulhos, apontar o caminho a ser feito. Sinceramente, o episódio narrado em Lucas 24. 36- 49, desmascara um Cristo mitológico, gnóstico, idealista e apresenta - O na mesa e ali desnuda os segredos de lutar, de insistir, de não arredar o pé da vida e do próximo. 

Tristemente, multidões correm, pra lá e cá, atrás de uma benção, de um socorro, de um paliativo, de um afago e acabam levedadas por engodos, por mandamentos estúpidos e por fundamentalismos megalomaníacos. Noutro lado da moeda, em Cristo Jesus, Deus decidiu em favor da humanidade, do próximo, de eu e você, do rico e pobre, do judeu e gentio, de todas as tribos, os povos, as raças e as nações e essa configura uma vida de fé, de gratidão (ao qual não significa conformismo, fazer vistas grossas para as calamidades e atrocidades) pela vida. 

É bem verdade, observamos a fé, como um processo de crença e recompensa, mas, opostamente, sublinho pelo inclinar de Jesus para abrir nossas mentes ou, melhor dito, tornar – nos livres, abertos para construirmos pontes de diálogo de esperança, de justiça, de misericórdia, de inspiração, de criatividade e de esperar o toque da trombeta com essa gratidão que não vem de nós. Então, a face da fé se chama a gratidão de Deus, a qual veio em favor da humanidade, a cada um de nós e, por isso, tenho a escolha por estendê-la, como testemunhas confessionais.



Fonte: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/a-face-da-fe-qual-e