sábado, 13 de abril de 2013

Oração ou deboche?



Muitas vezes oramos: “não nos deixes cair em tentação...” – e ao mesmo tempo direcionamos nossos pés para o caminho da tentação. Fazer isso é transformar a oração em deboche.

Jonathan Edwards (1703-1758) disse certa vez que “o pecado transforma o coração em um incêndio.” Você não pode ir brincar com o fogo e antes fazer uma oração a Deus pedindo que o impeça de se queimar.

Só está orando verdadeiramente aqueles que conhecem o poder da tentação e tem em Deus uma dependência sincera que brota de um desejo verdadeiro de ser santo.

John Newton (1725-1807) disse certa vez que a ação de Satanás sobre o coração pode ser ilustrada pela ação do vento sobre o mar. O mar, muitas vezes, parece suave,  mas ele está sempre disposto a inchar e se tornar bravio, obedecendo ao impulso de cada tempestade.

Assim, o coração pode estar às vezes silencioso, mas o vento da tentação vai despertá-lo em um instante... um coração sem o cuidado divino é instável e flexível como a água, como o mar... sua violência, quando agitado pelo vento, só pode ser controlada por aquele que pode dizer ao mar revolto: “Aquieta-te!”

Eis a razão porque é impossível pedir a Deus que o livre de cair em tentação, enquanto se procura oportunidades, lugares... para que o contrário aconteça.
Ao dizer que o pecado transforma o coração num incêndio, Jonathan Edwards diz que nunca houve um incêndio que tenha dito – “Já queimei o suficiente, eu estou bem agora”.

Do mesmo modo – temos que saber -  nunca houve ou haverá um coração pecaminoso dizendo: Já tive sucesso o bastante... Já tive luxúria o suficiente... já tive mundanismo o suficiente... Não!! Quanto mais combustível você colocar no fogo, mais quente e forte ele queima, e quanto mais ele queima, mais ele precisa de combustível, mais oxigênio sugará e desejará... a única coisa a ser feita é cortar o oxigênio, cortar todo o combustível: “Portanto, não sejais seus companheiros. Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” – Efésios 5.7-8.

                                                             Josemar Bessa

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Negros e africanos amaldiçoados?

Nota de esclarecimento e repúdio quanto à suposta maldição sobre negros e africanos

A Aliança Evangélica vem a público para repudiar o uso inadequado das Escrituras Sagradas, a Bíblia, juntamente com as interpretações e afirmações daí decorrentes, especificamente as feitas quanto a supostas maldições existentes sobre africanos e negros.

Afirmações desta natureza são fruto de leitura mal feita de parágrafos bíblicos, tomados fora do seu contexto literário e teológico, que acabam por colaborar com os interesses de justificar pensamentos e práticas abusivas, contrárias ao espírito da Palavra de Deus, cujo foco está na Justiça, na Libertação e na promoção da Vida e Dignidade Humana.
O texto em questão, que tem servido de pretexto para declarações insustentáveis, tanto em púlpitos, redes sociais, na tribuna do Parlamento e até protocoladas junto à Justiça Federal, sob o manto da imunidade parlamentar, versa sobre o significado da passagem bíblica encontrada no Livro de Gênesis capítulo 9, versos 20 a 27.

Nessa passagem Noé, embriagado, despe-se e assim é surpreendido por seu filho Cam que, ao invés de manter a discrição e o respeito devidos ao pai, o anuncia aos seus irmãos; estes se recusam a ver o pai nesse estado e, sem olhar para ele, cobrem-no com uma manta. Desperto Noé, ao saber da postura de seu filho Cam, amaldiçoa seu neto Canaã, filho de Cam, destinando-lhe a servidão.

O equívoco em questão dá a entender que a maldição proferida pelo patriarca bíblico contra Canaã, seu neto e filho de Cam, atinge os seres humanos de tez negra que habitaram, originariamente, o continente africano, o que explicaria os vários infortúnios em sua história passada e presente, culminando no longo período em que foram feitos escravos no Ocidente; e que o ato de Cam em ver a nudez de seu pai, mais do que um desrespeito, indica um ato de violação sexual por parte de Cam.

Queremos salientar enfatica e categoricamente:

1. Cam teve outros filhos: Cuxe, Mizraim e Pute, e somente Canaã foi amaldiçoado.

2. Embora o comportamento inadequado descrito no texto bíblico tenha sido o de Cam, filho de Noé, o objeto específico da maldição foi Canaã, o neto de Noé. [Segundo Orígines, um dos pais da Igreja, do século 3, Canaã foi quem avisou seu pai sobre a situação do seu avô, publicando o que deveria ter mantido sob reserva]. Amaldiçoar, no senso bíblico, não determina a história, mas descreve a consequência da quebra dum princípio estabelecido pelo ato desrespeitoso; portanto, significa a percepção de efeitos e desdobramentos de um comportamento específico. Ou seja, a postura de Cam e de seu filho Canaã estabelece um padrão comportamental que resultaria numa situação de inversão paradoxal, onde alguns dentre os descendentes de Canaã se tornariam dominados e serviçais dos seus irmãos.

3. Canaã, neto de Noé, foi habitar e estabeleceu-se na região a oeste do rio Jordão, até a costa do Mediterrâneo (sudoeste da Mesopotâmia), onde os descendentes de Canaã desenvolveram práticas absurdas, inclusive o sacrifício de crianças, e não no continente africano!

4. É de entendimento entre os teólogos especialistas no Velho Testamento que a maldição profética de Noé sobre Canaã foi cumprida quando da conquista da região povoada pelos descendentes de Canaã, os cananeus, por parte dos filhos de Jacó, sob o comando de Josué há mais de três milênios.

5. A maldição proferida sobre Canaã pelo seu avô Noé significou uma percepção e discernimento sobre uma tendência comportamental de um grupo humano, antevendo o resultado de uma corrupção cultural e civilizatória específica e localizada, e em consequente servidão, e de modo nenhum faz referência à cor da sua pele.

6. Não há nada, absolutamente nada, nem neste texto bíblico em foco nem na Escritura como um todo, que indique qualquer maldição sobre negros e africanos, e muito menos algo que justifique a escravidão.

7. O texto bíblico precisa ser lido em seu contexto imediato e considerado à luz da totalidade da Escritura, como saudáveis práticas de interpretação bíblica nos ensinam. De acordo com o próprio capítulo 9 de Gênesis, verso 1 e seguintes, é indicado que o desejo de Deus e sua promessa visam abençoar, dar vida, alimento e todo o necessário para o desenvolvimento de todos os descendentes de Noé, seus filhos e de toda a família humana. A declaração divina de abençoar a Noé e seus descendentes é firme e abrangente, e não pode ser contestada ou reduzida pela declaração relativa e descritiva de Noé a respeito de seu neto.

8. Deus reafirma o desejo de abençoar a toda a humanidade, a todas as famílias da terra, raças e etnias no episódio descrito na sequência da narrativa bíblica, quando da vocação de Abrão (Genesis 12), intenção que tem seu ápice e culminância na pessoa, vida e ministério de Jesus e continuado em curso na Igreja. Em Cristo, toda maldição é destruída e uma Nova Criação é estabelecida, sendo chamados a participar deste novo concerto todas as nações, etnias, raças, povos e famílias de todas as terras e da Terra toda, sendo revogadas assim todas as maldições e oferecida salvação a todas as pessoas.

9. A alegada violação sexual de Cam a Noé não é sustentada pelo texto. A citação do texto da lei de Moisés que chama a violação de descobrir a nudez não dá suporte a tal alegação, uma vez que os verbos usados são diferentes na raiz e no significado: no primeiro caso, trata-se de observação a distância; e, no segundo caso, trata-se de ato deliberado contra outrem.

10. Toda vez, na história, que esse texto foi aventado a partir dessa hipótese vulgar, tratou-se de ato de má fé a serviço de interesses escusos, seja quando usado para justificar a escravidão de ameríndios no Brasil colonial, seja quando usado para justificar a escravidão dos africanos de tez negra, seja quando utilizado para a elaboração de sistemas legais de segregação social como o que ocorreu nos Estados Unidos, seja quando usado para justificar a política nefasta e mundialmente condenada do “apartheid”.

Tal leitura equivocada da Escritura corre o risco de ser vista como suspeita de esconder outros interesses de natureza política, econômica e de dominação social e religiosa. Não há nenhum apoio bíblico para defender qualquer maldição sobre negros ou africanos, que fazem parte, igualmente e em conjunto, da única família humana.

Lamentamos o equívoco provocado por tal vulgarização do texto bíblico, bem como a banalização quanto ao conteúdo de nossa fé, assim como repudiamos qualquer tentativa, intencional ou não, de uso inadequado do texto para quaisquer fins que não o de promover a vida, a libertação e a justiça, como a própria Escritura expressa muito bem.

Brasil, 07 de abril de 2013.

Aliança Cristã Evangélica Brasileira

Nota:
Publicado originalmente no site da Aliança.

Fonte:http://www.ultimato.com.br/conteudo/negros-africanos-amaldicoados

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Quando Deus Responde as Orações?


 John Piper

John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens milhões de pessoas em todo o mundo. Ele exerce seu ministério pastoral na Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, MN, nos EUA desde 1980.


1 João 3:22–23

E aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável. Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.

Deus responde a oração de pessoas que guardam os seus mandamentos. Seus mandamentos se resumem nestes dois: 1) que creiamos no nome de Jesus, e 2) que nos amemos uns aos outros.


Portanto, Deus responde as orações de pessoas que creem em Seu Filho e que se amam.

Isso poderia significar duas coisas:

1. Que crer em Jesus e amar as pessoas é uma forma de tornar-se merecedor das respostas às orações. Isso não é verdade. Em primeiro lugar, porque você não se torna merecedor de nada por crer. Merecer algo é uma forma de mostrar o meu valor e colocar Deus em débito comigo. Isso não pode ser feito. Ele já é dono de tudo, e qualquer valor que eu tenha em mim é uma dádiva dEle. Você não pode ganhar algo de Deus dessa forma. Se você deseja Suas dádivas, você deve acreditar que elas são melhores do que qualquer outra e então confiar que Ele as dará gratuitamente àqueles que buscam servi-lO e não, o mundo.

Em segundo lugar, amar as pessoas não faz de você merecedor das bençãos de Deus, porque o amor já é uma obra de Deus em nós e não uma obra autossuficiente nossa por Ele. João ensina claramente que o amor é a evidência do dom da vida e não a retribuição ou pagamento pela vida.
O que João quer dizer quando ele fala que Deus responde as orações de pessoas que creem em Seu Filho e que se amam?

2. Ele quer dizer que a oração tem um desígnio, e se você não usá-la da forma correta, ela não "funciona" da forma correta. Qual é o desígnio da oração? A oração é projetada por Deus para ser o efeito da fé e a causa do amor.

Portanto, se nós tentarmos orar quando não cremos de verdade no nome do Seu Filho, a oração não "funciona" da forma que deveria. E se nós tentarmos orar quando nosso alvo não é amar, a oração também não "funciona" do jeito certo.


É por isso que "aquilo que pedimos dele recebemos, porque guardamos os seus mandamentos". Não porque guardar Seus mandamentos nos faz merecer respostas de oração, mas porque a oração é projetada para dar poder no caminho da obediência. A oração é a forma através da qual Deus se coloca à nossa disposição quando estamos transbordando em amor pelos outros. Oração é o poder de amar. Portanto, se nosso objetivo não é amar, oramos em vão. A oração não é projetada para aumentar prazeres acumulados.

A oração é uma maneira de chamar Deus para estar do nosso lado ao fazer o que Jesus veio para fazer. "Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar a nossa vida pelos irmãos." (1 João 3:16). É por isso que crer em Jesus e amarmos uns aos outros estão ligados como a forma de termos nossas orações respondidas. Crer em Jesus significa que nós admiramos a forma como Ele viveu e queremos ser como Ele. Você não pode crer em alguém e achar que a forma como essa pessoa viveu foi tola. Então, crer em Jesus necessariamente nos levará a amar os outros da forma como Ele amou. Crermos no nome de Jesus e amarmos uns aos outros são praticamente uma coisa só.

E já que Deus estava totalmente com Jesus com todo Seu poder e deu a ele toda a ajuda de que ele precisou, Ele também estará conosco quando nós crermos em Jesus e amarmos como Jesus amou. Então a razão pela qual Deus responde as orações daqueles que creem no nome de Jesus e amam os outros é que Deus ama exaltar Jesus.

Pela glória de Jesus e o poder de sua oração,

Pastor John.

Traduzido por: Isabella Vasconcelos


Fonte: Desiring God

Via:http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=480

terça-feira, 2 de abril de 2013

Altar do Bezerro


Jesse Campos

Jesse Campos é pastor titular da Igreja Batista de Bragança desde 1987. É bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo; possui mestrado em Divindade pelo Southwestern Theological Baptist Seminary (USA) e em Filosofia pela Baylor University (USA), e Unicamp. É doutor em Ministério na área de Apologética pela Baylor University (USA). Jesse é casado com Patricia Campos, com quem tem duas filhas.

Gilbert K. Chesterton apontou que o problema do homem que não crê em Deus, não é que ele tenha parado de crer, mas sim que esse homem crê em qualquer coisa. Moisés subiu ao monte Sinai para receber a Lei de Deus. Mas, como Moisés demorou a retornar, o povo israelita decidiu construir um bezerro de ouro. Ao regressar, Moisés encontrou o povo cultuando tal bezerro (Êxodo 32). O fato é que ou o ser humano cultua a Deus ou ele se devota a algum bezerro que lhe pareça reluzir. Toda pessoa tem um lugar supremo, e apenas um, no centro do seu ser e existência. Esse lugar é na verdade um altar - um altar último. E ao ocupar esse altar o ser humano oferece sua maior devoção - sua vida. A questão não é se alguém tem ou não tem esse altar. A questão é o que está nesse altar - Deus ou um bezerro de ouro?

O ser humano não consegue viver sem algo que dê significado ao seu ser e existência. Ele precisa de algo que lhe provoque uma antecipação de realização e satisfação. A vida se torna vazia e insuportável sem esse valor. O altar não pode ficar vazio. Mas, nessa necessidade inevitável, contida ou expressa, um erro é comumente cometido. O ser humano concede uma dimensão última àquilo que é contingente e fortuito, buscando em algo que é menor que a vida o "atender" o anseio da alma ao invés de buscar no que é maior que a vida... e morte. O ser humano transveste de Deus aquilo que não é Deus. É um trágico equívoco. Da sua profunda experiência com esse drama, Blaise Pascal alertou que o abismo do vazio interior "pode ser preenchido apenas por um objeto infinito e imutável, em outras palavras, por Deus".


Jacques Ellul, professor de Sociologia e História na Universidade de Bordeaux, falecido em 1994, apontou corretamente que a idolatria "não tem desaparecido, mas longe disso... há os deuses secretos que assediam e seduzem muito eficazmente, porque eles não declaram abertamente serem deuses..." Sem Deus, essa sedução sempre acontece. Nenhum ser humano deixa vazio o seu altar supremo. O apóstolo Paulo disse que os seres humanos "dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem..." (Romanos 1:22-23)

No abandonar Deus, a ocupação desse altar é concedida a uma variedade de bezerros. Se para uns é um objeto religioso, para outros, atualmente, são alternativas seculares. Para o adolescente, dominado pela mídia e moda, o ocupante do altar é geralmente um artista ou esportista. Para o adulto, pode ser o dinheiro. Para o devoto da ciência, o ocupante do altar é ela própria. Outros endeusam uma causa, como a ecologia. As opções de deuses se multiplicam em formas tais como poder, profissão, status, romance, família, esporte, sexo, drogas etc. Eis a questão - qual é o bezerro no altar supremo?

Na esfera da religião, o erro do bezerro é um velho conhecido. Por isso, o mandamento antigo proíbe categoricamente a construção de qualquer imagem ligada ao culto - "não farás para ti... nenhuma imagem..." (Êxodo 20:4). É oportuno observar que Deus não deixou nenhum dado sobre a aparência de Cristo. Se houvesse essa informação, absurdos idólatras iconográficos aconteceriam. O coração humano é rápido e sutil na arte de transferir a divindade para um objeto que possa manipular ou possuir, e que se molde às suas expectativas e projeções.

É relevante notar que a narrativa informa que "o povo, ao ver que Moisés demorava a descer do monte, juntou-se ao redor de Arão e disse... faça para nós deuses que nos conduzam, pois a esse Moisés... não sabemos o que lhe aconteceu" (Êxodo 32:1). A demora foi crucial para o erro do bezerro. Moisés foi o líder que Deus escolheu para conduzir o povo. Ainda que Moisés fosse o homem de Deus para aquela tarefa, Moisés não era Deus, mas um homem. No entanto, sem a presença visível de Moisés, o povo desconsiderou Deus. Devido a visão equivocada que tinha de Deus, o povo acabou na miséria de cultuar um bezerro. Eles queriam Deus numa manifestação sob o controle de seus sentidos. Seria um deus condicionado à percepção, manipulação, concepção ou expectativa deles. Na verdade, os deuses no altar humano são consequências do domínio do ego em contraposição ao domínio de Deus. Por isso, o ser humano transfere o seu anseio pelo divino para algo da sua projeção e expectativa, e termina nas mãos daquilo que é imanente e menor que a vida, seja algo religioso ou secular.

O antídoto para esse erro é ter uma compreensão nítida de quem Deus é - Deus que transcende o universo humano. Um Deus acima e além da vida e da morte. É preciso uma visão de Deus que torne irrelevante e desnecessário qualquer bezerro. E somente o conhecer do Deus que transcende a finitude humana pode trazer a satisfação final.

O fato é que os bezerros de ouro precisam ser abandonados ou não há encontro com Deus, portanto, não há satisfação plena. Pela fé, em arrependimento, o ego humano e suas idolatrias são crucificados com Cristo e o encontro com Deus acontece - o Deus suficiente. E no poder do Cristo ressurreto nasce uma nova vida com Deus. "...Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo..." (II Coríntios 5:19) E um novo cântico e preenchimento chegam à vida.

domingo, 31 de março de 2013

ALÉM DE UM PALMO DO NARIZ

Por João Marcos Bezerra
Baseado no livro “Liderando com a Bíblia” de Bill Hybels, Ken Blanchard e Phil Hodges

Quem já ouviu a expressão “não enxerga um palmo diante do nariz”? Isto normalmente é dito a quem bate em pessoas e objetos enquanto se movimenta ou a quem dar topadas frequentemente. Quem já passou por isso ou conhece alguém assim? Eu sim! Agora, imagine quem não enxerga de verdade, não é só falta de atenção. Como deve se sentir por não ver o que acontece a sua volta? Esta pessoa deve se esforçar o bastante para usar todos os outros sentidos para tentar substituir o que falta. O personagem da Marvel, o Demolidor, é um exemplo disso (risos). Já o que tem falta de atenção, não tem como apurar os outros sentidos para substituir a visão, pois ele ainda enxerga. Este caso, acredito que é mais grave do que a cegueira verdadeira, pois enxerga e não vê o que está diante do seu nariz.
Gosto de pensar que além de um palmo do nariz está o nosso futuro e não as coisas que vemos com os olhos naturais. A Bíblia nos diz que não devemos nos preocupar com o amanhã porque ele cuidará de si mesmo (Mt 6.34), mas quando vejo o exemplo de Deus na criação do mundo, onde em cada dia o Criador executava um plano criacionista bem detalhado (Gn 1); e o de Neemias quando orou ao Senhor sobre a reconstrução de Jerusalém e numa oportunidade dada pelo rei o copeiro apresentou todo um planejamento (Ne 1 e 2); entendo que isto é um atributo divino e foi dado à humanidade por ser a imagem e semelhança do Senhor.
Mas vamos deixar de “modelagens filosóficas” e chegar aonde queremos! O planejamento dos nossos projetos e sonhos é algo importantíssimo para obtermos êxito neles. Ele não é algo complexo e difícil de dedução. O fato de você se arrumar para sair e se preocupar com uma roupa para usar, quem será sua companhia, quanto vai gastar, o meio de transporte, horário de chegado e saída é um plano. Imagine se você pensa qual será o curso de graduação que fará, qual a idade que pretende casar, quando adquirirá um carro e uma casa, quando será sua aposentadoria! Isto também é um planejamento.
Jesus nos deu também o exemplo nesta questão e nos mostrou, através do seu ministério, como devemos planejar os nossos projetos. Isto porque Ele tinha uma visão clara do que queria, aonde iria chegar e como faria. Esta “visão clara possui quatro aspectos: objetivo, valores, imagem e metas” (HYBELS, 2001, p. 125). Cada uma destas limitadas por diretrizes, que “canalizam todos os esforços na mesma direção” (idem). Mas o que são cada um desses aspectos?! Vejamos!
O objetivo serve para mostrar para que o projeto existe e qual o tipo de empreendimento que irá se envolver. Em Mt 4.19 NVI diz: “E disse Jesus: Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”. Neste momento o Mestre apresenta aos seus discípulos qual o tipo de pescaria eles implementariam daí por diante. O projeto era, na verdade ainda é, alcançar as pessoas para o reino de Deus. Então, com base nisto, levando em conta a nossa vida e sonhos, qual o objetivo do seus projetos? Pense nisso!
Os valores são o segundo aspecto para se ter uma visão clara num planejamento. Eles determinam o comportamento da equipe para alcançar o objetivo. Jesus disse aos seus discípulos em Jo 10.10b ARA: “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. Além desse, vemos Paulo transmitindo outros valores em 1Co 13.13 ARA: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor”. Vida abundante, fé, esperança e amor são os valores bíblicos para ser um pescador de homens, que é o objetivo apresentado pelo Mestre. Apesar desses, infelizmente, a Igreja os têm corrompido e vêm transmitido valores distorcidos da Verdade para os cristãos. Consequentemente, estes são levados também a aplica-los equivocadamente em seus projetos pessoais. Os valores que você propõe no seu planejamento estão baseados nas Escrituras Sagradas ou não? Isso fará muita diferença!
O terceiro aspecto de um plano claro é a imagem, por alguns chamados de visão. Ela nada mais é do que a projeção de como será o futuro se as coisas ocorrerem como planejado. Em Jo 8.32 ARA Cristo apresenta o retrato do futuro do seu ministério: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. A liberdade ocasionada pelo conhecimento da verdade, que podemos dizer que é um dos recursos usados na “pescaria”, é a imagem do planejamento divino para o Reino. Em relação a nossa vida, devemos ter sempre em mente a visão de como desejamos o futuro, em todo e qualquer projeto. Além disso, devemos apresenta-lo de forma clara a todos que estão envolvidos nele, direta ou indiretamente.
Por último, o quarto aspecto importante num planejamento estão as metas, que é a direção que as pessoas devem tomar a curto e médio prazo. Normalmente as metas devem ser traçadas semestralmente ou anualmente, as vezes em períodos menores. Portanto que se mantenham na mente das pessoas envolvidas no projeto até o seu alcance. Quando pensamos no ministério de Jesus, qual seria a meta principal dele? Em Mt 28.19,20 NVI está a resposta: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei…”. E assim como Ele traçou esta meta clara, devemos fazer o mesmo em nossos planos de vida.
Quais são suas metas para alcançar seus sonhos? Você tem objetivos e uma imagem clara do que deseja na vida? Quais os seus valores? Junte estes quatro aspectos aos recursos (financeiros, materiais e pessoais) e você terá um planejamento bem estruturado para os seus projetos. Mais uma vez repito que este é algo divino concedido ao homem para que não vivamos sem sonhos bem fundamentos, bem reforçados em alicerces que não permitirão que eles sejam abalados pelas intempéries da vida.

Por isso, recomendo que todos, não só os líderes ou gestores, comecem a aplicar esta ferramenta e sejam pessoas com projetos eficientes. Lembre-se que até os improvisos, apesar de serem improvisos, precisam ser bem planejados para que alcancem o objetivo e sejam bem sucedidos. Que Deus nos conceda sabedoria e discernimento para que a aplicação da Sua Palavra seja eficaz em nós e também nos abençoe em todos os planos para que vejamos além de um palmo do nariz. Amém!

Fonte:http://jmarcosbezerra.blogspot.com.br/

segunda-feira, 25 de março de 2013

Lutero e o arrependimento egoísta e hipócrita!


POR JOSEMAR BESSA



Em 1521, Lutero escreveu:

“Nós fomos chamados a uma vida de arrependimento.
Esta vida, por isso,
não é justiça,
mas o crescimento em justiça,
não é saúde perfeita,
mas a cura,
não sendo,
mas tornando-se,
Não descanso,
mas o exercício.
Nós não somos ainda o que havemos de ser,
mas estamos crescendo em direção a isso inexoravelmente (Santificação).
O processo ainda não está terminado,
mas está acontecendo.
Este não é o fim,
mas é a estrada.
De forma plena ainda não brilhamos  em glória,
mas tudo está sendo purificado.”

Lutero está afirmando que o arrependimento é a única forma de progresso diário na vida cristã. Constante arrependimento nos termos bíblicos, que flui de contrição e humilhação verdadeira, é o melhor sinal de que estamos crescendo de fato em direção ao caráter de Cristo. Muito do que chamamosarrependimento é egoísta e hipócrita – porque o mero “arrependimento religioso” tenta apenas fazer Deus “feliz” para que continue a me abençoar e responder minhas orações. Motivações centradas no meu ego são evidência de uma vida voltada para dentro. No evangelho, o propósito do arrependimento flui do desejo e alegria da comunhão com Cristo, o que torna cada vez mais fraca a necessidade de fazer qualquer coisa que contraria o coração de Deus, levando assim a uma obediência cheia de gozo no viver para Sua glória.

Esse arrependimento não está concentrado nas conseqüências dolorosas que queremos evitar. Na verdade a obediência que ele gera leva muitas vezes aflições neste mundo. O Evangelho nos ensina que no homem que de fato foi regenerado, o pecado não pode levar, em última instância, o homem a condenação – Romanos 8.1 – Portanto, toda sua hediondez está no fato de que Ele desagrada a Deus e o despreza, algo insuportável para o coração regenerado. Por isso que diferente do “arrependimento meramente religioso,” que é auto-centrado, o verdadeiro arrependimento é completamente centrado em Deus.

O verdadeiro arrependimento nunca se torna “expiatório” como é o arrependimento segundo o coração natural. O arrependimento “religioso” se torna uma forma de auto-flagelação para o pecado no coração não regenerado, no qual o homem se convence de que está tão verdadeiramente miserável, triste e pesaroso, que merece ser perdoado. No verdadeiro arrependimento o homem sabe que só é perdoado por causa de Cristo e não há mérito ou qualquer merecimento da parte dele, merecendo apenas a condenação de Deus. No conceito de arrependimento baseado no homem e não centrado em Deus, ganhamos o nosso perdão por causa do nosso arrependimento... no arrependimento bíblico, tanto o arrependimento quanto o perdão são um dom concedido pelos méritos de Cristo e graça soberana.

Quanto mais você vê suas faltas e pecados, mais preciosa, eletrizante e surpreendente a graça de Deus parece para você. Quanto mais o Espírito opera a santificação em sua vida, mas profundamente você vê pecados que estavam ocultos e o desejo de mortificá-los aumenta a cada dia. Mas, por outro lado, mais consciente você fica da graça de Deus e aceitação em Cristo, então, mais capacitado fica em abandonar suas negações e auto-defesas e admitir as verdadeiras dimensões do seu pecado. O pecado sob todos os outros pecados é a falta de alegria em Cristo.

Em uma carta de 09 de janeiro de 1738 a um amigo, George Whitefield, colocou uma ordem para o arrependimento regular. (Ele regularmente fazia seu inventário à noite), ele escreveu:

Deus me dê uma profunda humildade e um amor ardente, um zelo bem orientado e  olhos fixos na Verdade, e então deixe homens e demônios fazerem seu pior –

"Aqui está uma maneira de usar essa ordem de arrependimento fundamentado no evangelho.”

Por exemplo...

Profunda humildade x orgulho

Você olhou para alguém tendo sido atormentado pelas críticas? Se sentindo desprezado e ignorado?

■ Se arrependa assim: Considere a graça de Jesus até que sinta

a) diminuir todo desdém (Já que você é um pecador também),

b) diminuir a dor com a crítica recebida (desde que não devemos valorizar a aprovação humana sobre o amor de Deus.)

À luz de sua graça posso deixar de cultuar a minha própria imagem aos olhos do mundo, sabendo que este é um pecado grande e que mina totalmente minhas forças de viver para Deus.


Amor ardente x indiferença.

Você tem falado ou pensado maldosamente de alguém? Tem se justificado as caricaturar ( em sua mente) outra pessoa? Tem sido impaciente e irritado? Tem sido egoísta, indiferente...?

■ Se arrependa assim: Considere a graça de Jesus até que haja

a) Total ausência de frieza ou grosseria (pense profundamente no amor sacrificial de Cristo por você),

b) Total ausência de impaciência (pense longamente na  paciência infinita de Deus para contigo), e

c) Total ausência de indiferença. (Considere a livre graça que te leve a mostrar calor e afeto. Deus é infinitamente atencioso comigo por causa de Cristo. Esta mesma causa me levará a imitá-lo em relação aos outros – Cristo!).

Coragem sábia x ansiedade

Você tem evitado pessoas ou tarefas que sabe que deveria enfrentar? Esteve ansioso e preocupado? Tem sido precipitado e impulsivo?

■Se arrependa assim: Considere a graça de Jesus até que haja

a) Nenhuma covardia de tentar evitar coisas difíceis e dolorosas (Uma vez que Cristo enfrentou todo mal por sua causa),

b) Nenhum comportamento ansioso se manifeste (desde que a morte de Jesus prova que Deus se preocupa e vai cuidar de ti até que eu sejas apresentado incorruptível diante de Sua glória). - Eu não sou sábio o suficiente para saber como minha vida deveria ser. Considere a livre graça e experimente uma reflexão calma, ousada e produtiva para a glória de Deus em todas as situações da vida.

Motivações piedosas x Motivações auto-centralizadas

Você está fazendo tudo para a glória de Deus e o bem dos outros ou sendo impulsionado por temores, necessidade de amor, aprovação, conforto, facilidade, necessidade de controle, fome por aclamação e poder, ou  temor do homem?  

Está olhando para alguém com inveja?  Se volta para qualquer pessoa ou coisa, mesmo que nos primeiros movimentos internos, com luxúria ou gula? Está gastando seu tempo com coisas, que por esses desejos parecem urgentes, ao invés de gastar a vida com coisas importantes e fundamentais aos olhos de Deus, estando cego por causa desses desejos desordenados?

■ Se arrependa assim: Medite profundamente no que Jesus já forneceu para ti e que você ainda está procurando nessas outras coisas.

Ore: "Senhor Jesus, me faça feliz o suficiente em Ti para evitar o pecado e sábio o suficiente em Ti para evitar o perigo, para que eu possa sempre fazer o que é certo aos teus olhos, em teu nome eu oro, Amém".

Lutero diz que a única evidência da vida cristã verdadeira é este constante arrependimento que nos leva a cada dia a semelhança maior com Cristo. Whitefield nos mostra com que seriedade diariamente ele ia diante de Deus neste verdadeiro arrependimento que sonda e transforma. Não se contente com menos que isso.

domingo, 17 de março de 2013

Agostinho, Deus, a eternidade e o tédio!


POR JOSEMAR BESSA


O que Deus estava fazendo antes de criar todas as coisas? Essa pergunta foi feita a Agostinho  (Tagaste, 13 de novembro de 354 - Hipona, 28 de agosto de 430). Agostinho deu duas respostas, uma bem-humorada e outra bem séria.

A primeira resposta foi que Deus estava preparando o inferno para pessoas que fazem esse tipo de pergunta. A séria foi que Deus não estava no tempo, já que este não existia. O tempo começou com a criação e afeta apenas a criação. Antes da criação o tempo sequer existia. O mundo não começou como uma criação no tempo, mas com a criação do tempo.

A pergunta que surge então é: Se não existia o tempo, o que existia? A resposta é a eternidade. Deus é eterno, e a única coisa que existia era a eternidade.

Toda questão da pergunta sobre o que Deus estava fazendo – implica na verdade se um ser infinitamente perfeito pode se cansar. Na verdade a pergunta vem da idéia de tédio. Mas o que chamamos de tédio, é um sinal de imperfeição e insatisfação... mas Deus sendo perfeito é eternamente satisfeito. Então, mesmo imaginando – como seres finitos como nós fazem – um tempo sem fim... uma mente infinitamente criativa ( eterna ) pode sempre encontrar algo totalmente satisfatório para fazer, pensar... Somente mentes finitas esgotam e chegam ao fim de seus recursos e então ficam entediadas.

Finalmente o Deus eterno é Trino – Pai, Filho e Espírito Santo – Um Deus, três pessoas, perfeita comunhão! Entediado e solitário não se encaixam de forma alguma ao Deus eterno. Deus não tem necessidades, é completo em si mesmo. Criou porque quis e não por qualquer necessidade. O tédio é impossível a tal ser.

“Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.” - João 17:4-5