sábado, 28 de novembro de 2015

Você tem medo de falhar?



Por: Dr. Richard L. Pratt Jr.


Um amigo certa vez me disse: “Meu temor do fracasso tem causado um grande problema entre meus familiares e eu. Eu não passo muito tempo com eles durante a semana. Eu receio tanto fracassar profissionalmente que isso me faz trabalhar dia e noite. Mas também acabo não passando muito tempo com eles nos finais de semana. O temor de fracassar em algo que não estou habituado a fazer absolutamente me paralisa”.

Mesmo se não formos a extremos como o do meu amigo, a possibilidade do fracasso não é algo de que gostamos. Todos nós deixamos de fazer aquilo que devemos fazer. Falhamos em nosso casamento, em criar nossos filhos, em nossas amizades, na escola, em nossas carreiras, na nossa vida de igreja – e, muitas vezes, com consequências devastadoras. Não surpreende, pois, que uma vez ou outra todos nós tenhamos um temor de fracassar.

As Escrituras apresentam uma série de perspectivas cruciais que nos ajudam a lidar com esse desafio. Abordaremos duas facetas do que elas ensinam: por que tememos o fracasso e como o fracasso pode ser uma oportunidade positiva para a esperança.

Por que tememos o fracasso?

Todos nós temos nossas razões pessoais para termos medo do fracasso, mas a Bíblia nos conduz à raiz do problema. Nós temos medo do fracasso porque não fomos criados para ele. Deus sempre está no controle soberano de todos os nossos defeitos, contudo, desde o princípio, Deus não nos criou para fracassar, mas para sermos bem-sucedidos em nosso serviço a ele.

Os capítulos iniciais de Gênesis claramente ensinam essa perspectiva. Em Gênesis 1.26, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. E o que isso significa? Nos versículos 28-31, descobrimos que fomos criados para ser bem-sucedidos em uma missão muito importante: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai […]”. O restante da Escritura elabora o objetivo dessa missão. Estamos nos preparando para o dia em que Deus encherá a terra da sua glória e receberá louvores sem fim de toda criatura. Fomos feitos para sermos bem-sucedidos nessa missão, não para fracassar.

Por que, então, falhamos tantas vezes? Gênesis 3.17-19 indica que a frequente futilidade dos nossos esforços na vida é a consequência do pecado. A nossa prisão ao fracasso não ocorreu na criação, mas resultou do julgamento de Deus contra nós. Assim, é de todo correto anelarmos por sermos redimidos de todo fracasso e de todo temor que ele traz.

Como o fracasso pode se tornar esperança?

As Escrituras não nos deixam anelando por redenção do fracasso e do temor. Elas nos dizem que Cristo veio em carne e cumpriu cada mandamento de Deus para reverter os efeitos do pecado de Adão. Cristo até mesmo se entregou na cruz como um pagamento pelos pecados do seu povo e ressuscitou em novidade de vida por nossa causa. Era isso que Paulo tinha em mente ao escrever: “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos” (1 Coríntios 15.21). Como a sua justa recompensa, o Pai ressuscitou Cristo e o fez assentar à sua mão direita. De lá, ele continua a cumprir a tarefa que Deus deu à humanidade no princípio. E, quando ele retornar em glória, ele fará novas todas as coisas. Naquele tempo, Deus encherá a criação da sua glória de tal maneira que “ao nome de Jesus se dobr[ará] todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confess[ará] que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2.10-11).

De que maneira tudo o que Cristo fez pode nos ajudar a tornar os nossos fracassos em esperança? Por um lado, a sua vitória nos livra de toda falsa esperança que tínhamos. Pode parecer estranho, mas o sucesso na verdade cria grandes problemas para as pessoas ao longo da Bíblia. Ele dá à luz as mentiras de que alcançamos a vitória por nós mesmos e de que o sucesso nas coisas desta vida é o que mais importa. Contudo, essas mentiras nunca nos satisfazem por muito tempo. À medida que o tempo passa, elas nos levam a mais terríveis fracassos.

Por outro lado, quando reconhecemos que apenas Cristo foi bem-sucedido em cumprir plenamente o serviço humano a Deus, recebemos a firme esperança de que, um dia, triunfaremos sobre todos os nossos fracassos. A vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo provam que ele derrotou a tirania do pecado e a consequência do fracasso, bem como – e aqui está a grande maravilha – que ele compartilha o seu sucesso com todos aqueles que nele confiam e o seguem. Com essa firme confiança em Cristo, sabemos que todo sucesso nesta vida resulta da sua obra em nós, e não dos nossos próprios esforços. Mais do que isso, mesmo os nossos fracassos nesta vida mantêm os nossos olhos fixos naquilo que mais importa para nós. Em vez de colocar as nossas esperanças nesta vida, depositamos as nossas esperanças no mundo por vir. Lá partilharemos plenamente da vitória de Cristo e nunca mais teremos qualquer temor de fracassar novamente.


Dr. Richard Pratt Jr. : é fundador e presidente do Third Millennium Ministries e professor adjunto no Reformed Theological Seminary em Orlando, Flórida, EUA.


sábado, 21 de novembro de 2015

Servir: o DNA da GRAÇA!


Por Robson Santos Sarmento


‘’Para o seguidor de Cristo, servir não representa algo a ser alcançado, mas a consequência prática de quem trilha pelo discipulado. ’’


Os líderes retratados pela história humana demonstram uma inclinação para terem a condução do destino de muitos. Dou uma pincelada a mais, cada vez mais, encontramos toda uma abundância de enfoques sobre uma convergência entre a denominada liderança secular e cristã, como um divisor de águas para o avanço do Reino de Deus.

Evidentemente, de forma alguma, devemos afastar todo o benefício proporcionado pela criatividade e pela potencialidade, concedido ao ser humano.

Agora, as andanças de Jesus, aqui neste oikos, traçaram outras nuances, em função de sustentar a liderança no amor prático e efetivo, no diálogo ponderador e concreto as situações da vida, como o mais importante, ou seja, reconhecer a relevância de todo ser humano, o valor de terem sido feitos como imagem de uma criação original e não frutos de uma necessidade.

De observar, muitos atrelam o serviço a uma visão pragmática de consolidar a liderança, como um meio para culminar na condição de liderança aprovada e reconhecida; entretanto, será isso mesmo?

Valho – me das palavras de T.W. Manson, a saber: ‘’no Reino de Deus, o serviço não é uma subida de degraus rumo a nobreza, porque ele é a nobreza, o único tipo de nobreza realmente reconhecido’’.

Sem sombra de dúvida, fomos criados com valores intrínsecos, com a capacidade criativa e inspiradora. Destarte, o papel dos seguidores de Cristo passa e perpassa pelo serviço e não pela exploração; por serem respeitados e compreendidos (segundo a palavra) e não manipulados, tratados como marionete, iludidos por promessas fabulosas e mais assemelhadas a sublimados contos do vigário.

Infelizmente, cada vez mais, percebe – se os mosaicos de uma liderança, ao qual faz das pessoas seguidoras exclusivas de personalidades carismáticas, de lideranças, embora, aparentemente, eficientes e eficazes, resumidas a eventos, a simpósios, a métodos, a sistemas e subsistemas, a programas e a estratégias, enquanto as pessoas são retiradas do enfoque fundamental do trabalho da Cruz de Cristo.

Eis os espinhos a serem retirados, diante de um cenário evangélico, por onde pessoas são vistas e tratadas como objetos e não serem humanos, suas vidas integrais depende de um aval ou não dessas lideranças (com quem caso o que compro ou não, faço ou não faço) e, indiscutivelmente, são reduzidas a bonecos adestrados misturados a multidões desesperançadas e alimentadas com um discurso positivista travestido de uma aura divina.

Não por menos, o servir se constitui no DNA da liderança apregoada por Cristo, em função de desmoronar o individualismo escondido numa aparente intimidade e predestinação com Deus, num isolamento das pessoas e da vida para uma hipotética vida de santidade e, por fim, terminam por construir uma biografia egoísta e narcisista, senhor de si mesmo.

Verdadeiramente, o DNA do cristão representa arregaçar as mangas e um complementar o outro, com o agregar e a soma dos aspectos positivos (das potencialidades) e isto envolve e compensam as fraquezas, as fragilidades, as vulnerabilidades, como também traz o desafio de uns prestar constas aos outros, ou seja, relacionamento pautado em uma convivência sobre responsabilidade compartilhada com o outro, não com só com Deus, livra – nos da opulenta ilusão de que nos bastamos, conforme o texto de Provérbios 12.15.

Ademais, o discípulo segue ao seu mestre e, aqui, a ideia fundamental, o coração – útero, a ênfase se encontra no serviço, no DNA DA GRAÇA, João 13.12 – 17; 1 Pedro 5.5; Gálatas 5.13.


Fonte: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/servir-o-dna-da-graca

domingo, 15 de novembro de 2015

Como o conforto do Espírito nos sustenta!


Por Josemar Bessa


Estava olhando hoje um volume de um grande puritano chamado Wilhelmus à Brakel ( 1635-1711 ) – Em sua maravilhosa obra - Christian's Reasonable Service – Publicado pela primeira vez em 1700.

No volume 1, perto do fim do capítulo sobre a Trindade, ele fala sobre as operações do Espírito Santo dentro do crente. Brekel cita seis maneiras como o Espírito Santo nos sustenta com seu conforto:

1. O Espírito nos mostra que a cruz que devemos ter é tão leve que não é digna de ser algo que tire nossas forças ou desanime. Isto torna-se especialmente evidente quando Ele concentra a nossa atenção sobre a glória futura que será em breve nossa: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” ( Romanos 8.18 ).

2.  O Espírito nos mostra a brevidade do levar a cruz como sendo apenas um momento: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente” - 2 Coríntios 4:17. Aquilo que ocorreu ontem já não existe, e que virá no amanhã não sabemos. Nós temos o presente meramente que passa tão rapidamente quanto a progressão do tempo. O que é a nossa vida, quando comparada com a eternidade?

3.  Ele nos mostra as vantagens ocultas nas nossas tribulações. Ele nos mostra como ela nos humilha, nos torna submissos, nos desmama do mundo, nos ensina a depender de Deus e confiar nele somente, e como nós crescemos em santidade segundo o testemunho do apóstolo: “Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” - Hebreus 12:10,11

4.  O Espírito nos mostra que nosso caminho é o caminho de Deus - pelo qual Ele leva todos os seus filhos para o céu. Ele nos mostra que tudo flui da vontade soberana de Deus, que Ele exerce com pura sabedoria e bondade, para lidar conosco dessa forma. Junto com isso, Ele nos dá o amor pela vontade de Deus, de modo que estamos de acordo feliz com a Sua vontade, levando-nos a orar, " E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres... E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.” - Mateus 26:39, 42.

5.  O Espírito nos assegura do amor e da graça de Deus em relação a nós e que temos achado graça aos seus olhos. Tal testemunho é suficiente para nos levar a considerar a nossa cruz como insignificante: “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.” - 2 Coríntios 12:9.

6.  O Espírito nos mostra que o resultado final de nossas aflições serão coerentes com o que temos vivido hoje. Ele nos mostra que a nossa cruz não vai ser nem muito pesada nem vamos ser obrigados a suportá-la por mais tempo do que o necessário para o intento de Deus. Nada vai nos sobrecarregar, pois Ele estará conosco, mesmo quando tivermos que passar pela água e fogo. Como resultado, os rios vão nos afogar, nem o fogo nos queimar: “Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.” -  Isaías 43:2


Fonte: http://www.josemarbessa.com/2015/11/como-o-conforto-do-espirito-nos-sustenta.html

domingo, 8 de novembro de 2015

Protestantes que não protestam

Por Derval Dasilio          

“Não há um justo, sequer um…”
Romanos 3.9-18

“Só tu me remiste, Deus da verdade.”
Salmo 31

Cuidemos do princípio protestante, como lembrava Paul Tillich. Este imprime a intuição sobre a função histórica do protestantismo. Ele desmascara os ídolos religiosos, os santos e as imagens, como as máscaras da religião, os ídolos políticos, os governantes, os pastores, e o próprio “status quo” das igrejas oficiais e influentes quanto ao exercício das leis que regem uma nação, e do moralismo hipócrita das elites burguesas eclesiásticas ou pretensamente cristãs.

Sobre tais assuntos, regidos por três pontos: “Sola Gratia”, “Sola Fide” e “Sola Scriptura” (Só a Graça, Só a Fé e Só a Escritura). “Só a Escritura” é um princípio que evoca o esforço de volta às fontes do Cristianismo.

A Reforma, no tabuleiro das políticas ocidentais, deu o xeque-mate ao mundo espiritual imperialista, autoritário, absoluto, que pretendia governar o mundo com vestes clericais e símbolos religiosos que impõem poder aos tiranos, dão-lhes a força das armas e poder político absoluto, enquanto enfraquece os suspiros dos oprimidos. O poder político-religioso era questionado desde as fortalezas e portões de ferro que separavam pobres e fracos dos dominadores imperiais e poderosos.

Em questão as denúncias protestantes: “prerrogativas do estado religioso sobre o estado civil”; “prerrogativas de instâncias religiosas oficiais sobre a interpretação das Escrituras”; “prerrogativas divinas para os mestres da igreja”; “prerrogativas para convocar a igreja aos concílios, para receberem suas orientações” (conformação tirânica aceita por consenso inautêntico). Representando a tirania eclesiástica, uma igreja na Alemanha mantinha 17.413 relíquias sagradas, para as quais se exigia veneração mediante pagamento de indulgência, comportando 128.000 anos de "direito à salvação do inferno, e lugar garantido no céu".

A Reforma afirma que a Graça vem da iniciativa de Deus, e não pela oferta da salvação homologada pela Igreja; a Salvação é a “fides” concreta, “fides incarnata”, fé ativa nas obras que libertam. O discipulado cristão vem em primeiro lugar, pelo testemunho libertador das Escrituras, em favor das liberdades humanas.

Necessitamos do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são “protestantes”, no rigor do termo. Nada, no mundo eclesiástico, é mais representativo da Reforma que o movimento pela unidade dos cristãos, sob a orientação revolucionária, em torno de diaconias libertárias.

O CMI (Conselho Mundial de Igrejas) e suas filiadas, representam um movimento de solidariedade aos oprimidos do mundo inteiro. Inclusive a Criação, o Planeta Terra, aviltados e espoliados; inclusive os desterrados e refugiados, banidos, excluídos, os pobres, os famintos, em todos os quadrantes do mundo habitado (“oikumene”).

A oração ecumênica, pronunciada em todas as línguas e dialetos, em toda a parte, evoca a confiança que as Escrituras oferecem aos cristãos: "Na nova era, a comunidade mundial será redimida. Sob a égide de Deus, estabelece-se uma nova etapa na história do mundo. O relacionamento com Deus será tão íntimo que Deus se dispõe a responder aos oprimidos mesmo antes que estes o procurem. A oração ecumênica: Deus, em tua Graça, transforma o mundo, é também o clamor do cristianismo ecumênico". Nos opositores da Reforma se encontrará também uma espécie de ódio filial à própria matriz comum da Igreja Apostólica total, geral (“ekklesia katholikos”).

A misericórdia de Deus se apresenta aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar do passado autoritário; sua compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os homens e as mulheres, além de não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si mesmos e nem da corrupção ou depravação que os acompanham (João Calvino). Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: “É Deus quem toma a iniciativa de salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo”.

Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do pecado: “Esto peccator et pecca fortiteter, sed fortius fide” (“seja um pecador, e peca fortemente, mas creia ainda mais firmemente”; esteja confiante na graça da salvação).

Teses da Reforma, hoje, não passam de “lembranças nebulosas”, em várias situações. Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Resignam-se ou se submetem aos poderes opressores. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça, não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, "se todo mundo é evangélico, ninguém é evangélico” (Luiz Longuini Neto).

Resta dizer que a oikumene compreendia a Igreja católica, originalmente universal, abrangente, total (katholikos), no Protestantismo emergente. A democracia do laós (povo) de Deus, nunca existiu na totalidade, ao que parece, porque ainda está por vir. Ou, se existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em retrocesso, onde foi alcançada. Creio.

Essa era a Igreja que restara do cisma de 1054, no Ocidente. O princípio “Igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a patrística cristã. Reformava-se a Igreja dentro da Igreja. Nenhum reformador falou da criação de outras igrejas. Menos de dois séculos depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo individualista e, posteriormente, pelo evangelicalismo exclusivista. Protestantes são apontados como crentes que não protestam mais.

Foto: Ang Leach/Freeimages.com

Derval Dasilio: É pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e autor de livros como “Pedagogia da Ganância" (2013) e "O Dragão que Habita em Nós” (2010).


sábado, 31 de outubro de 2015

Valorize o seu pecado

MAURÍCIO ZÁGARI


Pode soar estranho eu dizer isso, mas o seu pecado pode ser muito útil para ajudá-lo a viver uma vida de santidade. Aliás, permita-me ser um pouco mais específico: não o pecado em si, mas a percepção do seu pecado. É quando você se dá conta de que peca todos os dias, e muito, que passa a olhar para os demais pecadores em igualdade de condições, compreendendo que você não é moralmente superior a ninguém. Pois o fato de termos a natureza pecaminosa em nós nos nivela a todos, algo que só Jesus é capaz de desfazer. É ao confrontar-se com sua inclinação incorrigível para fazer o mal que percebe que os demais pecadores são simplesmente o que você também é: alguém que erra vez após vez e carece da graça divina.

A percepção do nosso pecado retira de nossos olhos a soberba, de nossos lábios a acusação e de nosso coração a arrogância. É ao nos percebermos culpados de tantas falhas que somos capazes de estender uma mão restauradora ao pecador, em vez de um dedo acusador. Miseráveis homens que somos, sujeitos à escravidão do pecado e às tentações mais vis. E quantas vezes sucumbimos! É… não temos o direito de nos colocarmos num patamar moral superior ao dos outros pecadores. O que temos é o direito de clamar pela misericórdia divina. Ajuda-nos, Senhor, em nossas misérias, pois não somos melhores que nossos pais…

Eu valorizo o meu pecado. Não por ele merecer minha valorização. Eu o odeio. Eu o abomino. Assim como abomino o seu pecado. Assim como abomino qualquer pecado. Mas o meu pecado é uma pedra no sapato que constantemente, a cada passo de minha jornada, ajuda a me pôr no meu devido lugar: pó. Nesse sentido, ele é um indesejável aliado, que constantemente me recorda de que o único caminho é ser misericordioso com os meus iguais: aqueles que pecam todos os dias.

Não tenho opção a não ser estender compaixão e perdão. Pois preciso fazer ao próximo o que gostaria que fizessem a mim. E ai de mim se não fosse a misericórdia e a compaixão e, acima de tudo, a graça, que me trata como se eu não fosse pecador. Não ser gracioso não é uma opção. Mas quem gosta de ser gracioso? Nós queremos é ver sangue! Só que, se não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim, eu não importo. Tenho de negar a mim mesmo, tomar a minha cruz e seguir o manso Cordeiro.

Valorize o seu pecado, para que se lembre constantemente dele e faça de tudo para esmagá-lo. Jesus nunca se esqueceu do seu pecado, tanto que subiu à cruz para que um dia você pudesse, enfim, se ver livre dele. Esse dia chegará. Num lugar chamado eternidade você não terá mais de conviver com pecado algum. Até lá, que ele sirva como um lembrete continuo de que você não é melhor do que ninguém.

E ainda assim, Deus te ama. Que amor sublime e extraordinário…

Paz a todos vocês que estão em Cristo,


Fonte: https://apenas1.wordpress.com/2015/10/22/valorize-o-seu-pecado/

sábado, 24 de outubro de 2015

A antiestática da fé


Por Rogério Brandão Ferreira


Você me pergunta como meço a dinâmica de minha fé.

Observamos o crescimento de uma árvore, dia após dia, quase não percebemos seu desenvolver.

Precisamos voltar à semente.

Vejo ela em sua integridade, imutável, guardada em qualquer recipiente.

Mas eis que ela se deita no chão. É coberta pela terra. Some.

Não precisamos esperar muito para percebermos que a vida, contida naquele pequeno grão, rompe a dura casca e algo começa a surgir da terra.

A nova planta solta ramos, folhas e assim vai crescendo de forma perceptível.

Quando então árvore, frondosa, seu desenvolvimento, ainda que mais volumoso, ou até talvez por isso mesmo, torna-se mais discreto.

Nas quatro estações porém a árvore perderá suas folhas, dormirá, florescerá e dará frutos.

Com a fé não é muito diferente.

A fé não pode ser estática.

Por que então não admitirmos seus altos e baixos como uma dinâmica natural, cansativa, porém saudável?

Há momentos em que a fé, como semente tem que estar envolta em dura casca, imóvel e aparentemente sem vida. Deve ser este contudo um estágio passageiro de transição.

Depois a fé em seu desenvolvimento e dinâmica próprios passará por crises, por certezas e incertezas. A existência exige da fé momentos de angústia e momentos de euforia, mas também de serenidade e diversidade. Todos eles legítimos e necessários.

Como então medir a dinâmica dessa fé? Talvez, simplesmente, não seja necessário…


Fonte: http://www.ultimato.com.br/comunidade-conteudo/a-antiestatica-da-fe

sábado, 17 de outubro de 2015

Calvino, Ezequias e nossa prosperidade!



Então disse Ezequias: "Viram tudo quanto há em minha casa; coisa nenhuma há nos meus tesouros que eu deixasse de lhes mostrar.”  - Isaías 39:4

Deus salvou Jerusalém e curou o rei Ezequias. Mas em meio a essas bênçãos, o rei não percebeu o perigo que elas traziam. Elas testariam o rei e ele seria um fracasso.

Os babilônios estavam em guerra com os assírios, e o rei da Babilônia sabia o quanto os judeus odiavam os assírios... ele sabia da forma como miraculosamente Jerusalém tinha sido poupada. Então ele pensou que para derrotar os assírios, seria ótimo contar com a ajuda do judeus.

Sob o pretexto de comemorar a recuperação de Ezequias, o rei da Babilônia enviou presentes a Jerusalém. Ezequias ficou lisonjeado. É fácil ficar lisonjeado quando achamos que pessoas relevantes, influentes... nos notam. Não é por isso que a Verdade de Deus sempre é comprometida em nossos dias? Para receber atenção da cultura, ser notado, ser visto como relevante também, etc? Ezequias ficou lisonjeado com a atenção deste poderoso rei, e ele achou que para ter mais vitórias, essa aproximação seria útil. Lógico, que como hoje, ele poderia racionalizar dizendo a si mesmo o quanto isso poderia ser importante para o povo de Deus, a causa de Deus...

Por esta altura, Ezequias tinha acumulado muita riqueza, e ele tinha orgulho de mostrá-la para os babilônios. É o que acontece quando os mesmos valores do mundo são os nossos valores. Como medimos se somos abençoados? Tão orgulhoso Ezequias estava, que ele mostrou aos babilônios todo o seu tesouro e suas armas.

Não muito tempo depois deste episódio, o profeta Isaías veio a Ezequias. Ele deve logo ter percebido que algo estava errado, porque os profetas não visitavam reis para jogar conversa fora. Mas ele parecia estar completamente cego por seu orgulho e ambição em seu envolvimento com a Babilônia.

No momento que Isaías perguntou o que os babilônios tinham visto, Ezequias falou sem rodeios, alegremente... Ele em momento algum parecia perceber o seu pecado até que Isaías o confrontou diretamente e lhe disse que um dia toda a nação iria para o cativeiro na Babilônia e que seus próprios filhos seriam mortos.

Agora, o que Ezequias tinha feito que era tão mau aos olhos de Deus para merecer tal punição? Ele tomou sua prosperidade como sua conquista... o que fez crescer nele um orgulho tolo. Algo pode ser mais comum que isso? João Calvino comenta que “nada é mais perigoso do que ficar cego pela prosperidade”.

Junto a isso, Ezequias – ao atribuir a si mesmo (Sua capacidade, engenhosidade, estratégia, trabalho, merecimento... – razão pela qual o orgulho é produzido.) a sua prosperidade – também se permitiu entreter pensamentos de que uma aliança com uma nação ímpia, algo claramente proibido por Deus, traria a ele possibilidade de sucesso e prosperidade maior.

Ele tinha esquecido rapidamente a misericórdia que Deus lhe havia mostrado restaurando sua saúde, lhe dando tudo que tinha... por isso ele permitiu que o orgulho e a ambição ficasse no caminha de sua discrição, modéstia e verdadeira ação de graça. Ezequias usou todas as “redes sociais” do mundo antigo para desfilar seu orgulho. É o que João chama de soberba da vida – sinais de status: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo.” -  1 João 2:16

Ezequias percebeu perfeitamente o que tinha feito no momento em que ouviu a repreensão de Isaías. Ele aceitou a punição e deu graças a Deus por misericordiosamente retardar as consequências para depois de sua morte. Mas elas viriam. Isso pode parecer desconsideração com seus descendentes – e certamente que como é para nós,  isso era uma dor para ele – mas o seu reconhecimento que isso era misericórdia de Deus, já que Deus poderia justamente puni-lo instantaneamente, era uma manifestação sincera, apropriada e humilde de um coração que tinha mostrado um orgulho tolo.

É muito fácil baixar a guarda e fazer coisas tolas quando estamos desfrutando de prosperidade ( por menor que ela seja ). Nos tornamos espiritualmente preguiçosos e arrogantes. Isso é algo do qual devemos, se vivemos para Deus, nos proteger constantemente. Você está confiando em suas riquezas? ( Coisas materiais – mesmo que não seja algo grande ) – Tira delas a tua identidade? Se sente melhor, mais vitorioso, animado... por causa delas? Coisas? Realizações? Mente? Onde está o tesouro que você ostenta claramente para o mundo, na terra ou no céu? Quem recebe todo crédito por eles? – “Se no ouro pus a minha esperança, ou disse ao ouro fino: Tu és a minha confiança; Se me alegrei de que era muita a minha riqueza, e de que a minha mão tinha alcançado muito; Se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, caminhando gloriosa, E o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão, Também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria a Deus que está lá em cima.” - Jó 31:24-28

João 12: 20-50 -  seria uma boa leitura agora.


Fonte: http://www.josemarbessa.com/2015/10/calvino-ezequias-e-nossa-prosperidade.html